
Regresso
"Education is what remains after one has forgotten everything he learned in school."
By Albert Einstein
Gosto de estudar, tenho este vício.
A curiosidade que me é intrínseca leva-me a querer perceber e saber para além dos rótulos que se atribuem às coisas.
É azul, porque é.
Não chega. Para mim não chega.
Lembro-me de exasperar adultos quando os questionava insistentemente para que me explicassem os porquês do universo.
Agora, compreendo-os.
Ao fim de um dia de trabalho ser-se sujeito à santa inquisição por fedelhos e sobreviver, é um feito digno de nota.
No entanto, ainda hoje me tiram do sério quando me respondem porque sim, porque não ou se escondem atrás do nome das coisas.
Da escola, enquanto instituição, guardo memórias contraditórias.
Professores atirados para matérias que não gostavam de leccionar ou para uma profissão de que não gostavam.
Professores incapazes de gerir uma trupe indisciplinada e barulhenta.
Professores que nos obrigavam a memorizar páginas e páginas de saber, como se o saber pudesse ser decorado e não interiorizado.
Professores que pouco respeitavam os seus alunos enquanto seres humanos com vidas próprias.
E depois, existiram todos os outros.
Os que não obrigam mas propõem, os que respeitam e são respeitados, os que se fazem compreender e compreendem.
Aqueles que fazem da escola uma doce memória e um apetecível presente.
Aqueles que nos ensinam que o saber não se compra mas se constrói e que a função da escola não é atulhar-nos de palavras mas dotar-nos de ferramentas para a vida.
Por causa deles e sempre que posso regresso à escola para aprender.
(Photograph by Maria Stenzel, Siberia, Russia)
InfânciaA minha infância não permaneceu.Hoje não tenho infância.Não tenho infância.Não posso recuperar-me dentro dela.Y.CentenoPassavam por ele como se fosse transparente, ignorando-o uma e outra e outra vez.Puxou-me pela manga.Era pequeno para a idade, teria talvez uns dez anos mas parecia menos, muito menos...- Tenho fome!- Não te dou dinheiro!- Só tenho fome.Eram quatro da tarde, mas chovera e a cidade estava um caos.Descalço e sujo, ali andava de um lado para o outro a pedir uns cêntimos a quem passava.A chuva ensopara-o e um pequeno tremor era visível.Acompanhou-me até à pastelaria da moda, logo à esquina.Um indivíduo enorme barrou-lhe a porta e, sem o deixar dizer ai, avisou-o de que não queria nada com os da laia dele.Encarei-o e respondi-lhe que a criança estava comigo.Dei-lhe a mão, levei-o até ao balcão e um círculo vazio criou-se à sua volta.Preocupava-o que estivesse a gastar muito dinheiro e pedia-me incessantemente que o não fizesse.Puxei-o para uma mesa e sentei-o.Retirou cuidadosamente um guardanapo e com ele tentou tirar a porcaria de muitos dias que se acumulava nas suas pequenas mãos.Depois calmamente comeu uma sandes de carne assada e bebericou um copo de leite quente.- Não queres mais nada.- Não, já comi.- Deixo-te escolher um bolo.- Tive que insistir até ceder. Repetia-me que era muito dinheiro. Escolheu uma fatia de pão de ló com um pouco de creme.- Posso guardar este bocadinho para os meus irmãos?- Podes.Embrulhou um terço de bolo em alguns guardanapos e segurou-o. Disse-lhe que podia ir.Agradeceu e saiu.Fui pagar.- Ah, a senhora não devia fazer isso. É um desperdício. São todos uns malandros.- replicou-me a empregada.Sugeri delicadamente à senhora que tratasse da sua vida e não da dos outros.Ruborizou, devolveu-me o troco e pareceu amuar.O círculo fechou-se.Nessa noite e em muitas outras noites, penso nele e rezo para que esteja bem.(Photograph by William Albert Allard; Delhi, India)
AmanhecerWhen night is almost done,
And sunrise grows so near
That we can touch the spaces,
It 's time to smooth the hair
And get the dimples ready,
And wonder we could care
For that old faded midnight
That frightened but an hour.
In Dawn, Emily Dickinson
Hoje, amanheci na areia molhada da praia entre os gritos das gaivotas e a espuma salgada do mar.
Ganhei este hábito de acordar assim cedo, ainda noite escura e ir sentar-me à beira mar.
Conheço um a um os pequenos barcos suavemente pousados nas águas e os vultos de pequenas lanternas que deslizam na fronteira entre a terra e o mar.
Desejam-me um bom dia e sorriem.
Conheço aqueles rostos tisnados pelo mar onde assomam olhos profundos como os abismos marinhos.
Têm tido dias difíceis.
Vocês não sabem e talvez nem sonhem mas o mar é um vício que se apossa de nós. Depois de se conhecer e amar o mar…a terra parece-nos uma prisão sem fim, um desencantamento eterno.
Prendem estas gentes à terra para que vivam e não percebem.
Não percebem que os destroem a cada onda que não sentem, a cada brisa que não os percorrem…
(Photograph by Luis Marden; Madagascar)
Delighted
“Midwinter spring is its own season
Sempiternal though sodden towards sundown,
Suspended in time, between pole and tropic.
When the short day is brightest, with frost and fire,
The brief sun flames the ice, on pond and ditches,
In windless cold that is the heart's heat,
Reflecting in a watery mirror
A glare that is blindness in the early afternoon.
And glow more intense than blaze of branch, or brazier,
Stirs the dumb spirit: no wind, but pentecostal fire
In the dark time of the year.
Between melting and freezing
The soul's sap quivers. There is no earth smell
Or smell of living thing. This is the spring time
But not in time's covenant. Now the hedgerow
Is blanched for an hour with transitory blossom
Of snow, a bloom more sudden
Than that of summer, neither budding nor fading,
Not in the scheme of generation.
Where is the summer, the unimaginable
Zero summer?”
In “Little Gidding”, T.S.Eliot
Londres!
Não é a cidade que mais amo mas é uma cidade viva de contradições e de gentes que não me deixa de forma alguma indiferente.
Confesso que a amálgama a que convencionaram chamar café e que mais não é do que uma mistela indistinta de água e borras me tira do sério e me deixa à beira de um ataque de nervos. Mas este desapontamento permanente é sempre compensado pelo prazer indescritível de scones barrados com manteiga e doce ou pelo chocolate quente pejado de marshmallow de que sou adepta convicta.
Gulosa? Eu? Não sei…
Não querendo passar por anúncio publicitário…quando gosto, gosto muito. É um facto.
A confluência de gentes com diferentes vivências, posturas, credos empresta à cidade um colorido multicultural que faz parte do seu encanto e o viajante, desprevenido, em busca do inglês típico e prazenteiro a que os media nos habituaram, terá certamente uma desilusão.
Deslumbrantes são também os parques magníficos em que esquilos, castanhos e cinzentos, nos assaltam em busca de bolachas e mimos e transeuntes rosados exibem orgulhosamente a sua roupa interior aos raios de sol que ocasionalmente os visitam. Na companhia das típicas sandes de pão fatiado e recheio diverso e dos meus eternos poetas perco-me sempre nestes pedaços de verde imaculado.
Mas onde o meu coração bate forte e os meus olhos parecem mar em dia de espuma brava são nos imensos espaços em que a palavra da humanidade é uma certeza populando cada canto, cada esquina, cada prateleira de edifícios sem fim. Sou capaz de reconhecer aquele odor em qualquer sítio do mundo!
Livros, livros e livros!
Livros por todo o lado, acessíveis a todas as bolsas, a todos os credos, a todas as opiniões, a todas as multidões…
E sim! Esta é uma das razões porque amo esta cidade.
(Photograph by Neil Emmerson/Robert Harding World Imagery/Getty Images)
A Hora da Loba
Se todos os desejos fossem medos
E todos os teus gritos vagabundos
E todos os teus gestos só enredos
De uma novela fora deste mundo
Se todos os teus choros fossem raiva
E os dedos fossem pontas de navalha
Os olhos, de repente, a luz que crava
A lança quando o coração te falha
Se a luz do teu sorriso fosse fogo
E o som da tua voz fosse um punhal
Que brilha ao escuro na Hora do Lobo
Quando um suspiro sopra um vendaval
Espero por ti
Na Hora do Lobo
Quando as nossas sombras são iguais
Espero por ti
Na Hora do Lobo
Se estamos juntos não somos demais
Se todos os teus passos fossem grandes
Correndo todo o mundo num só salto
E os braços fossem asas esvoaçantes
Da Águia que vigia lá no alto
Se todas as fraquezas fossem forças
Daquelas que rebentam as muralhas
Que crescem pelo meio das tuas rotas
E que te põem dentro das batalhas
Se toda a tua vida fosse tua
E o teu destino fosse teu refém
Se a Terra toda fosse a tua rua
E a tua rua fosse de ninguém
In a A hora do lobo, Luís Represas, 1998
A Hora do Lobo é a hora que ocorre entre as três e as quatro da manhã.
Nas fragas… a Hora do Lobo são todas aquelas intermináveis horas da meia-noite às primeiras horas que antecedem a aurora. Horas em que só os loucos ou os incautos se atrevem a sair da segurança do seu lar e a caminhar lado a lado com demónios.
Hora em que os mais profundos temores assaltam a existência dos vivos, hora em que se morre, hora em que se nasce…
Mas a hora do lobo povoada de maus sonhos, premonições e maus agoiros é também a hora em que a fêmea Alpha pode libertar-se dos seus afazeres maternais e correr livre com a matilha como o fazia no início dos tempos.
É a hora em que as mulheres do meu povo impunham a sua escolha decidindo quem ficava e quem partia.
É a hora em que sempre acordo surpreendentemente desperta e vagueio na brisa da noite.
É a Hora da Loba, da loba que existe em cada mulher.
A minha arte
"Cada quadro encerra misteriosamente toda uma vida, com muitos sofrimentos, dúvidas, horas de entusiasmo e de iluminação. Para onde se dirige esta vida?"
in Do Espiritual na Arte, W.KandinskyA minha arte é uma amante caprichosa com vida e exigências próprias que me cumprem satisfazer.Voltarei em breve.(Egon Schiele, Mulher Sentada com a Perna Esquerda Levantada)
It's who you are
"She never took the train alone
she hated being on her own
She always took me by the hand
and says she needs me
She never wanted love to fail
she always hoped that it was real
She'd look me in the eyes and say believe me
But then night becomes the day
and there's nothing left to say
If there's nothing left to say
then something's wrong
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild
And as the hands would turn with time
she'd always say hat she was my mine
She'd turn and lend a smile
to say that she's gone
But in a whisper she'd arrive
and dance into my life
Like a music melody
like a lovers song
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild
Through the darkest night
comes the brightest light
And the light that shines is deep inside
It's who you are
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful, beautiful
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild
So beautiful and wild
So beautiful and wild" By Reamon, TonightLiguei o pequeno leitor que incansavelmente transporto comigo.Percorri um a um os temas que me enchem a alma de música.Mas algo de mim se recusava a ouvi-los.Liguei o rádio.Passava esta música.(Baby, Jack Vettriano)
Ritmo "Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como
a dos Rothschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera,
para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o
passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, queé o único que se deve ter na vida."in Os Maias, Eça de QueirósQuisera eu ter doze anos e regressar ao braços da ria que corria calma e ondulante, onde os peixes se me prendiam nas mãos e as aves se me repousavam no corpo.Lembro-me do passo preguiçoso que me conduzia a casa onde me esperava quase sempre um banho de mangueira para retirar "o principal" pois o resto era retirado à força de uma escova que me escoriava o corpo.Lembro-me dela a remendar-me os calções e as camisolas e a suspirar baixinho de alívio por eu chegar a casa inteira.Ensinou-me que o dia é imenso se soubermos o que fazer com ele, se soubermos aproveitá-lo. Hoje parei e lembrei-me dela.Amanhã? Amanhã não serei deste ritmo louco mas o ritmo será meu.Ela? Acho que irá sorrir e velar para que eu me alimente como deve ser...(Photograph by James L. Stanfield; Tashigang, Bhutan)
Às vezes, há noites assim
"It is the crimson, not the gray,
That charms the twilight of all time;
It is the promise of the day
That makes the starry sky sublime;
It is the faith within the fear
That holds us to the life we curse; --
So let us in ourselves revere
The Self which is the Universe!
Let us, the Children of the Night,
Put off the cloak that hides the scar!
Let us be Children of the Light,
And tell the ages what we are! "
in The Children of the Night by Edwin Arlington Robinson
As luzes da cidade, pequenos pontos cintilantes, clareavam a noite escura de lua velada.
Para alguns, a noite apenas começara e percorriam avidamente as ruas em busca do esquecimento para a semana de trabalho que terminara.
Aqui e ali, nas sombras, corpos ofereciam-se a animais esfaimados que passavam mas sempre com a esperança de sobreviverem a cada eterno encontro.
Almeidas listrados carregavam detritos numa azáfama constante de quem quer recolher a casa cedo e deixar para trás a imundíce dos outros.
Vi a cidade, as luzes, os ruídos ficarem para trás.
Um cheiro intenso e familiar inundou-me o corpo e a brisa suave deu-me as boas vindas.
Fiquei imóvel, não me recordo de quanto tempo, a ouvir o seu rugido constante.
De manhã sossegou e eu com ele.
Regressei a casa e adormeci.
Às vezes, há noites assim.
(Photograph by Sam Abell; Port Campbell National Park, Victoria, Australia)
Prende-me a ti! 
"Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!" In O Principezinho, Saint Exupéry
Estacou por uns instantes e perguntou-me se poderia ser minha amiga.
Fala por vezes um pouco demais e indagava-se se eu, entre os meus silêncios, seria capaz de suportar toda a sua algazarra.
Respondi-lhe que sim mas que a amizade tinha de ser trabalhada, construída e cuidada como a bela rosa do Pequeno Princípe.
Anuiu...e permaneceu em silêncio.
(National Geographic; Photograph by James P. Blair;Istrian Peninsula, Croatia)