Sunday, November 15, 2009
Almost Blue
Chet Baker
[http://www.youtube.com/watch?v=alUSx_X_za8]
Saturday, November 07, 2009
Grand Wazoo
Ed Palermo Big Band
[http://www.youtube.com/watch?v=vB1AhuMgczQ]
Contigo, construí bolos de bolacha e café que se erguiam aos céus.Contigo, fiz da horta reino de duendes e de fadas.
Contigo, corri no pântano em busca de príncipes verdes.
Contigo, saltei muros e portões em busca da fruta oferecida.
Contigo, fui descalça à igreja...porque isso não importava.
Contigo, sentei-me ao lume e adormeci sob as estrelas.
Contigo, sonhei e aprendi que o sonho é chama de alento.
Sem ti, caminho, sempre, porque assim mo ensinaste...
...Mas fazes-me falta...
.Muita.
Monday, October 12, 2009
Spiritual Awakening
Wynton Marsalis Septet
[http://www.youtube.com/watch?v=C9J1dpXftMA]

Nasci num outro país. Não aqui. Não neste chão de pouca memória.
E, mesmo assim, votei. Uma e outra vez.
Não por mim. Nem por vós.
Não por uma causa. Hoje, poucos saberão o que isso significa.
Não por uma personalidade. Narciso é uma criatura temperamental que me entedeia.
Não por um programa ou por um projecto. Planícies desertas de uma certa forma de estar.
Nem mesmo pelo dever ou pelo direito.
Votei, isso sim, por uma ideia que já aqueceu e guiou multidões.
Votei por uma palavra que, se não cuidada, acabará perdida em velhos livros empoeirados ou obscuros acordos ortográficos.
Votei por ti Liberdade.
Friday, October 02, 2009
Open Your Eyes, You Can Fly
Lizz Wright
[http://www.youtube.com/watch?v=FB5WESDsRGI]

Ontem estava ali, tropeçando nos atacadores das botas ortopédicas, calções rotos, camisola de lã imensa, joelhos e cotovelos esfolados e um cabelo eriçado que fugia a pentear. Os tostões da semana esticados ao limiar do inverosímil, enquanto a jornaleira atrasava, dia após dia, a devolução de livros e revistas até que o meu pequeno orçamento me permitisse acomodá-los. Foi assim que conheci a Mafalda. Curiosa, pertinente, íntegra. E, num mundo de certezas absolutas, onde a dúvida não tinha chão, descobri casas de cimento armado repousadas em mares de incerteza, habitadas por respostas fáceis de porque sim e porque não.
Pelas perguntas que fizeste nascer em mim, bem hajas Mafalda e Muitos Parabéns!
(E para todos vós que me acompanham, nesta aventura de momentos, um muito especial fim de semana.)
Wednesday, September 30, 2009
Somewhere Over the Rainbow
Keith Jarrett
[http://www.youtube.com/watch?v=eq0EWNuR1H8]
A cidade adormece e aquieta-se. Através da vidraça aberta, observo os animais da noite para os quais o dia não basta e a claridade é uma maldição. No prato, a agulha acorda-me do sonho e relembra-me que a perfeição de um momento não se esgota num minuto. Impõe-se recomeçar, uma e outra vez. A eternidade espera-nos, não a façamos pois esperar... Essa é a liberdade que invoco, uma criatura endeusada a que muitos aludem mas que poucos encaram. O poeta rebela-se e grita-me que é livre. Recusa a servidão dos burocratas e das massas mas cai na servidão da negação. Indigna-se perante o meu sorriso mas no espelho do seu parco quarto reconhece o castelo de cartas e o sentido dessa ausência de liberdade que lhe atribuo.Monday, September 28, 2009
Once I Dreamt A Tree Upside Down
Jan Garbarek Group
[http://www.youtube.com/watch?v=Uw4oc5fKzO4]
Quando éramos pequenos, viajávamos em carros sem cintos e airbags...viajar á frente era um bónus. Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e... sabia bem.
Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso. Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo...e só depois nos lembrávamos que faltavam os travões... Ao acabar num silvado, aprendíamos.
Saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso...
Não tínhamos Play Station, X Box ou Nintendo!
Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD ou chats na Internet!
Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos á rua!
Jogávamos ao elástico, à barra e à bola até doer!
Caíamos das árvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal.
Havia lutas com punhos mas sem sermos processados.
Batíamos ás portas de vizinhos, fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.
Íamos a pé para casa dos amigos.
Acreditem ou não... íamos a pé para a escola; não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.
Criávamos jogos com paus e bolas.
Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem.
Eles estavam do lado da lei.
Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.
Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.
És um deles?
Parabéns!
Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, 'para nosso bem'.
Para todos os outros que não têm a idade suficiente, pensei que gostassem de ler acerca de nós.
Isto, meus amigos é surpreendentemente medonho... E talvez ponha um sorriso nos vossos lábios.
A maioria dos estudantes que estão hoje nas universidades nasceu em 1986, ou depois. Chamam-se jovens.
Nunca ouviram 'we are the world' e 'uptown girl' conhecem de Westlife e não de Billy Joel.
Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle.
Para eles, sempre houve uma só Alemanha e um só Vietname.
A SIDA sempre existiu.
Os CD's sempre existiram.
O Michael Jackson sempre foi branco.
Para eles, o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo tivesse sido um deus da dança.
Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie, são filmes do ano passado.
Não conseguem imaginar a vida sem computadores.
Não acreditam que houve televisão a preto e branco.
E, portanto, agora vamos ver se estamos a ficar velhos:
1. Entendes o que está escrito acima e sorris.
2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada.
3. Os teus amigos estão casados ou a casar.
4. Surpreende-te ver crianças tão á vontade com computadores.
5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis.
6. Lembras-te da Gabriela (...da primeira vez).
7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos.
8. E vais encaminhar este e-mail para outros amigos porque achas que vão gostar.
Sim, estás a ficar velhor...mas tivemos uma infância do caraças!
By Autor Desconhecido
Wednesday, August 12, 2009
Sunday, August 02, 2009
My Foolish Heart
Bill Evans
[http://www.youtube.com/watch?v=a2LFVWBmoiw]
Conheço esse meu país de terra queimada. A visão de um inferno flamejante e chão carvão, onde nem a esperança subsiste numa réstea de vida. Conheço o cheiro da carne dos animais de estábulo perdidos entre línguas de fogo solto, os seus bramidos de dor e terror, que enchem de negrume o mais brando dos corações e enlouquece os vivos. Conheço as lágrimas daqueles a quem não restou nada e a quem até os soluços são estertor de desespero. Conheço o gosto da fuligem que se entranha em nós e do travo amargo na língua, do cheiro avassalador que nos impede de respirar. Conheço esse pesar de um coração rasgado quando a cada passo, no rescaldar das cinzas, se encontra a morte do que já foi vivo. Conheço esse silêncio de vida por onde apenas o vento assobia e que nos entristece a alma.
E, talvez por isso, quando a notícia relatada é de que a "GNR diz que dados de fogos e da área ardida em 2007 e 2008 foram alterados "por desconhecidos""(in Publico, 02 de Agosto de 2009), quando não se sabe o que ardeu, como ardeu, e porque ardeu, e ninguém se parece sequer importar ou indignar... no meu coração cresce a chama que já vi deitada por terra.
Monday, July 27, 2009
What's New
Clifford Brown
[http://www.youtube.com/watch?v=juuN7_rTBDo]
Não sou um bom garfo, na medida em que, o meu organismo prontamente se recusa a processar determinado tipo de alimentos. Resultado, talvez, de uma juventude inquieta e de uma idade adulta em que os meus espaços e tempos são, por demais, contaminados com urgências e importâncias profissionais de seriedade ambíguas. O facto é que independentemente das limitações que tolhem alguns dos meus movimentos, as conversas francas e fartas a uma mesa de refeições são, não só uma das mais belas memórias de um tempo ínfimo da minha meninice, como um prazer redescoberto, mas que exige de mim bem mais que simples habilidade. Substituir sabores, cores, aromas sem desvirtuar a arte de outros, mais do que um acto de criatividade duvidosa é uma tarefa espinhosa, por vezes, com resultados francamente inesperados...outras vezes, nem tanto!Dissertação Culinária X
Numa língua de azeite, ao lume, depositar 2 a 3 chávenas de chá de arroz. Deixá-lo dourar um pouco, mexendo bem. Depois, cobri-lo com água. Temperar com sal e pimenta. Não deixar cozer de mais. Quando pronto, coá-lo e passar por água fria.
Numa panela deitar uma cebola com casca, piri-piri, e sal grosso. Deixar ferver. Colocar gambas para 3 a 4 pessoas. Algo entre 800g a 1kg, diria. 4 min e estão prontas. Descascar.
Cortar cebolinho e alho aromático, misturar com raspa de limão e pinhões. Juntar tomate de cacho, cortados aos cubos, o arroz e as gambas. Azeite, umas gotas de limão e um pouco mais de pimenta. Com cuidado, envolver todos os ingedientes.
E depois...!!?
Frigorífico até os convivas chegarem.
E, se sobrou limão... é óptimo para limpar o recipiente da gambas e disfarçar o cheiro, antes dos primeiros curiosos nos entrarem cozinha dentro, inquirindo-nos sobre o que se come por aquelas beiras.
As gotas de limão mantêm a refeição fresca e divertido mesmo, é ter a cozinha toda arrumadinha e ver um ou dois de rabo para o ar a espreitar o forno, na tentativa vã de perceberem exactamente o que vão degustar!
Acompanha com algo fresco, boa companhia e o meu doce Chet, obviamente!
Thursday, July 23, 2009
A cada cordeiro de espuma branca, a linha de água recuou um pouco mais. A marcar essa fronteira invisível, entre a terra e o mar, despojos do oceano que coleccionei e depositei na toalha branca de algodão grosso. A outro ser caberia, depois, deleitar-se e espantar-se com os pequenos invólucros calcários rugosos e coloridos. Momentos do maravilhoso que acompanham todos os passos incertos da meninice cuidada, e que nos aquecem o coração, anos mais tarde, em dias de prolongada trovoada.No corpo, sal, água e o creme branco, armadura de Verão, com que insisto em me vestir, cheiros de maresia e civilização que se misturavam numa troca de odores.
Nas semanas em que, a aurora e o pôr do sol, se tocam no meu horizonte de deveres, este deambular do espírito e do corpo facilita-me o descanso, que mais do que merecido, é exigido.
E depois do convite das águas, que melhor do que um pouco de Jazz na quentura apetecível da noite?
É certo que, o som era doce, como chocolate quente em dia de ventania, e que de Francesco Cafiso esperaria mais, muito mais.
A criança que era, não será talvez ainda o homem que poderá ser, mas pouco estragaria tão prazenteiro dia.
E, já noite estrelada, o meu coração apenas vacilou, um pouco, perante uma plateia em que pobremente se falava português.
Tuesday, July 14, 2009
Miroslav Vitous
[http://www.youtube.com/watch?v=L8rL5ML0fwU]

das palavras
com tectos de saliva
e quartos grandes
na união total
e Humidade
do deslizar a vida
na garganta
habito as manhãs
a cor - o tempo
a curva adocicada da vontade
aquilo que se prende
e apreendo
aquilo que desfaço
e não disfarço
Depois a vastidão
o riso e o sossego
sossego sem ser paz
nem aventura
Respiro o que não tenho
nem viagem
habito o que descubro
e a cidade
O corpo
a revolta
a pele os membros
O ritual interno
e a ternura
E se as palavras tenho
como armas
moldando-as uma a uma
conscientemente
é de habitá-las hoje
que suponho não mais poder
usá-las conivente
Palavras by Maria Teresa Horta
Sunday, July 12, 2009
Chick Corea, Bob Berg, Eddie Gomez, Steve Gadd
Straight No Chaser
[http://www.youtube.com/watch?v=VjjkOQWJ2ug]

As luzes da cidade acenderam-se faz tempo. No céu um enorme queijo redondo mordiscado por um Pierrot inquieto. Cresce, cresce lua! Traz o mar às nossas praias de areia branca e macia. "A lua mente, criança! Cuida que a lua mente!" Palavras de outras gentes e outras terras que ecoam no silêncio da noite fustigada por vento bravio. Sim, a lua mente e o quarto quase prenhe que vislumbro numa noite raiada e escura, prenúncio de outros dias de sol, mais não é do que o quarto minguante que se anuncia.
Tuesday, July 07, 2009
"Easy to Love"
Patricia Barber
[http://www.youtube.com/watch?v=41Of6sltTZY]
As caras fecham-se.Os rostos contorcem-se.
Os sorrisos desaparecem.
Os aumentos foram diminutos.
Mas existiram! Insisto.
Indignam-se, ripostam-me que mais era devido, mais muito mais...
Sorrio.
Apenas isso.
E abandono-os numa inquietação surda que lhes consome o resto do dia.
Cedo tempo meu em horas sem fim.
Sim, em justeza, mais seria devido, mas recuso-me a deixar que o assunto me escureça o dia.
Não é uma cedência.
O assunto foi endereçado da forma que considerei apropriada, mas não vivo em redor do meu umbigo.
Vejo, observo, apreendo.
E, por agora, rejeito apenas que me acompanhe num dia de sol e vento em que o rio se encrespa em mil gotas e um passeio apetece.
Wednesday, July 01, 2009
Brad Mehldau
[http://www.youtube.com/watch?v=8BVhwMfJTdA]
Nas paredes pequenos demónios vermelho-amarelados dançam a música que a brisa da noite lhes traz. As velas, assim acesas, emanam um cheiro forte que se propaga pela casa. Não gosto dessa escuridão absoluta que afasta do céu a lua e aproxima das nossas crias antigas criaturas das trevas, mas este cintilar evoca a memória da lua cheia em mar de vento norte e aquece-me o coração. Hoje não chove, no Zen passa When It Rains. Memórias de uma praia de ondas soltas e bravas onde as gotas empapam os incautos, em dias de tempestade, e alguns se arrastam quebrados na areia da praia. Sangue e sal que se misturam e não se reconhecem, sentidos que latejam e mil dores que nos atormentam. Na vida como no mar, deixei que as ondas me escolhessem, deixei-me embalar, esqueci-me de mim e embati na areia. Hoje, no mar, aguardo pelo tubo perfeito, aquele que me acompanhe apenas e me devolva depois incólume. Na vida não há tubos perfeitos, mas ali naquela praia aprendi uma lição maior. Que quem ama, exige.Saturday, June 27, 2009
[http://www.youtube.com/watch?v=JptCLHEMBvM]
- Até tu, Brutus?!!
- Sim, César, até eu!
Até eu, ensaiei a coreagrafia de Billie Jean e de Thriller!
Até eu, arrisquei o Moonwalk!
E, por isso mesmo, hoje, deixo-vos They Don't Care About Us.
Sunday, June 21, 2009
Nature Boy
Jon Hassell
[http://www.youtube.com/watch?v=s9pm7rxm1gA]
Thursday, June 18, 2009
Tears Dry On Their Own
Amy Winehouse
[http://www.youtube.com/watch?v=ibyHm7kZGSo]
Meu copo de leite não está quente nem frio, mas amargo e escuro exalando um aroma profundo a café. A torrada de pão de centeio pinga manteiga que gosto de lamber, como uma criança pequena, e partilhar com o gato que me ronrona no colo. Resmungo como resmungo sempre que não sei o que fazer. Sorris-me e dizes que mimo é mimo, não é para gerir, só para aceitar. Não resisto. Contigo não há moedas de troca ou sentidos escondidos, e depois estou cansada, demasiado. Mantenho as presas ocultas e as garras fechadas. Aqui e agora, não preciso delas. Obrigas-me a erguer, a pôr-me de pé, a andar e insistes, insistes sempre. Sorris de novo, falas-me do sentido da vida e recordas-me que pertenço ao mar e que, do seu jeito possessivo e terno, ele cuidará de me trazer suave vento e boas ondas.Bem hajas amiga, pela quietude que instalas no meu coração.
Sunday, June 14, 2009
Alfie's Theme
Sonny Rollins
[http://www.youtube.com/watch?v=mCDv5NK54u0]

Poema das coisas
Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
O saber-se como é, onde é que está e como,
O aguardar sem pressa, e atender-nos
Da forma necessária.
Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
Esperam as coisas que o desespero as busque.
Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
A cadeira onde a memória está sentada,
A mesa, o copo, a chávena, o relógio,
O móvel onde alguém permanece encostado
Sem volume e sem tempo,
Nós próprios, quando os olhos indignados
Nas pálpebras se encobrem.
Põe-se a pedra na mão e a pedra pesa,
Pesa connosco, forma um corpo inteiro
Fecha-se a mão e a mão toma-lhe a forma,
Conhece a pedra, estende-lhe o feitio
Sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão e a mesma pedra avulta.
Se fosse o amor dos homens
Quando se abrisse a mão já lá não estava.
by António Gedeão
Monday, June 08, 2009
David Sanborn
[http://www.youtube.com/watch?v=FUiwAGTDxvA]

Na frescura da manhã avistavam-se idosos em marcha rápida e decidida. Gentes de outros usos e tempos, vivenciados na importância de se deitar o voto. Elas de carteira e saco de plástico apertado contra o sovaco, eles de boné ou chapéu bem enterrado na cabeça para que o frio ar matutino não os apanhasse desprevenidos nas enormes clareiras que lhes sulcam as fontes. Mochila às costas, bicicleta debaixo do ombro e uma camisola cor de rosa, linda, linda...que amo mesmo! Fui votar nestes preparos. Se ela fosse viva ter-me-ia dito que não era apropriado, que era falta de respeito, teria insistido talvez para que calçasse os agulha pretos e que vestisse algo sóbrio.
A sala estava na penumbra, o que certamente contribuía para o ar ensonado dos elementos presentes. Dois ou três minutos bastaram-me para dar por concluído o que ali me levara.
Ao fim do dia, liguei a televisão. Anunciavam-se conquistas intemporais, o recomeço de uma nova era, tempos de mudança. Os sorrisos eram os mesmos de sempre. Plásticos. Falsos. Dissimulados. A palavra que mais se ouvia...Vitória. Eu?! Eu teria escolhido uma outra... Vergonha. Porque ontem não ganhou ninguém e perdemos todos um pouco mais... liberdade, consciência, futuro, direitos...ontem de novo empenhámos algo que já houve tempo não tivemos...e ninguém se pareceu importar.
Sunday, June 07, 2009
As fadas que brincavam no lago, do antigo carvalho verde, desapareceram. O ogre que habitava no fim do arco-íris partiu, para parte incerta, e nem o seu caldeirão nos deixou como réstia de um sonho. Os duendes da clareira amarela nunca mais foram vistos e o lanche, que eu insistia em deixar para trás na esperança de os rever, apodrecia dia após dia. Até os animais o pareciam rejeitar como se, por graça de algum mistério ininteligível para mim, adivinhassem que a hora chegara. E, chegou...cresci.
A antiga magia dos espíritos da terra esfumou-se como se apenas às crianças pequenas fosse dada a benção de a conhecer e os adultos eternamente condenados a desejá-la apenas.
E, no entanto, ontem, na tenda dos nómadas um pouco da antiga magia bafejou mais que apenas as crias do homem.
Varekai. Em qualquer lugar.

Ele senta-se. Olha-me e solta um longo suspiro. «Que estranho cachorro me trouxeste para casa! Não és lá muito boa a fazer escolhas, pois não? Não vês que ele se equilibra mal! Devias ter escolhido melhor!» Ergue-se e cheira a pequena criatura que mal se sustém. Vejo-a tentar caminhar na minha direcção para rapidamente descobrir que apenas consegue andar para trás. A frustração estampa-se-lhe no rosto. O cão suspira de novo e colocando-se atrás dela, empurra-a com o focinho até mim. Depois senta-se e parece dizer-me «Agora, segura-o! Pega nele como deve ser e vê se não faz mais disparates! Vou fazer uma sesta e quero sossego!» Estira-se na sua enorme almofada e o riso solto da minha pequena criança ecoa pela casa.
Tuesday, June 02, 2009
Elevation of Love
E.S.T.
[http://www.youtube.com/watch?v=gtEztYjk88s]
Ela permanece imóvel na expectativa dos minutos seguintes. Em pé, de costas para si, ele agita-se um pouco, meneando a cabeça. Depois, sabendo-a irredutível, deixa-se cair para trás e ela ampara-o, não o deixando alcançar o chão. Ela é baixa, pequenina até, mas enorme na tenacidade e nas certezas do seu coração. Ele, pouco preparado para tamanhas fragilidades, vê-se assim exposto nos braços da esposa mas, por uma vez, aquieta-se e resiste à voz que lhe diz que há coisas que um homem não faz. E, eu pergunto-me,... quantos de nós estaríamos dispostos a executar semelhante exercício?
Sim, sim. Eu sei...não é uma questão de confiança!!
Não? Claro que não.
Então... é uma questão de exactamente o quê?
Monday, June 01, 2009
Parlami d'amore, Mariù
Enrico Rava
(Enrico Rava, Enzo Pietropaoli, Piero Ponzo e la Banda Osiris, Stefano Bollani, Gianmaria Testa)
[http://www.youtube.com/watch?v=xaHfe5Dklcs]
Sunday, May 24, 2009
How Deep Is The Ocean
Paul Motian Quintet
(Paul Motian, d; Marc Johnson, b; Lee Konitz, as; Joe Lovano, ts; Bill Frisell, g)
[http://www.youtube.com/watch?v=QSkFI-rTtUM

Vivera com ela aquele tempo todo sem saber que eram tudo coisas que ela detestava. Coisas que, em si mesmas, não passavam de ninharias. Coisas tão triviais que até davam vontade de rir. Nada que merecesse ser levado a sério. O mais certo era o assunto cair no esquecimento daí a meia dúzia de dias.
E, no entanto, não foi bem isso que aconteceu. Aquilo continuou a dar-me que pensar, a incomodar-me como uma minúscula espinha de peixe cravada na garganta. Podia muito bem tratar-se de algo mais importante do que parecia assim à primeira vista. Se calhar era isso mesmo: um facto crucial. Ou podia acontecer que aquilo fosse apenas o princípio de um problema mais grave, para não dizer fatal. Se calhar encontrava-me no limiar de um mundo, mundo esse habitado unicamente por Kumiko e que me era totalmente desconhecido. Aos meus olhos, via-o como um quarto enorme e escuro. Eu andava pelo quarto com um isqueiro minúsculo na mão. Mas a chama do isqueiro só me deixava ver uma ínfima parte da divisão.
Conseguiria ver alguma vez o resto? Ou envelheceria e morreria sem chegar a conhecê-la bem? Se era esse o caso, que sentido tinha a minha vida de casado? Que sentido fazia a minha vida, uma vez que vivia e dormia na mesma cama com uma estranha?
by Haruki Murakami
in Crónica do Pássaro de Corda
Wednesday, May 20, 2009
You'd Be So Nice To Come Home To
Chet Baker
[http://www.youtube.com/watch?v=nB1Lr6HBbu0]
Os abutres já tinham partido. A carcaça estava limpa, despojada de carne ou fibra, restavam somente ossos e pele. Ela lá estava à hora marcada, comprometida com o papel que tivera nas acções dos últimos dias.O pé direito das paredes perdia-se em direcção ao céu e os corredores sem fim eram labirintos onde o filho maldito dos deuses me buscara antes quando seguia pela mão de um simples homem. Depois, tão somente uma carcaça abandonada, despida, vazia dos espíritos que antes ali habitaram.
Seguindo os rituais da tribo, os herdeiros tinham reclamado - ou talvez, pilhado - o que entenderam como seu. Agora, era a minha vez de o fazer. Mas o que reclamar? Morreram-me...Não haveria ouro, insenso ou mirra capazes de fechar a ferida, de suster a dor. Debruçei-me sobre os despojos e coloquei de lado preciosidades destinadas, por outros, à recolha camarária...Foi o que trouxe comigo... objectos irreparáveis, partidos, destroçados...
A cada ano após esse dia, empenhei-me neles, procurei artesãos e saberes perdidos, busquei técnicas e materiais. A cada um que recuperei, a ferida fechou-se um pouco mais e o meu coração aquietou-se, também ele, um pouco mais. E, olhando-os hoje, o meu espírito reconhece neles as chamas que os animam e que o meu intelecto rejeita.
Sunday, May 17, 2009
Edges Of Illusion
John Surman
[http://www.youtube.com/watch?v=BFE3140Lhw0]
Thursday, May 14, 2009
Mandala
Jan Garbarek with Keith Jarrett
(Keith Jarrett, p; Jan Garbarek, s; Palle Danielsson, b; Jon Christensen, d)
[http://www.youtube.com/watch?v=bA7fqYrQGps]
A crise sente-se.
Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.
Subitamente, um rico turista russo, chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de 100€ sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.
O dono do hotel pega na nota de 100€ e corre ao fornecedor de carne a quem deve 100€, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar 100€ que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os 100€ a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os 100€ e corre ao hotel a quem devia 100€ pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.
Neste momento, o turista russo desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos 100€.
Recebe o dinheiro e sai.
Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.
Contudo, todos liquidaram as suas dívidas e a pequena vila costeira encara agora o futuro optimisticamente.
(Autor Desconhecido)
Wednesday, May 13, 2009

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde
António Ramos Rosa
Estou vivo e escrevo sol
Sunday, May 10, 2009
Blue Train
John Coltrane
(John Coltrane, ts; Lee Morgan, tp; Curtis Fuller, tb; Paul Chambers, b; Kenny Drew, p; Philly Joe Jones, d)
[http://www.youtube.com/watch?v=S1GrP6thz-k]

Ela pesa a laranja na mão avaliando a olho nu a sua suculência. Depois, descasca-a sem ferir os gomos e parte-a em rodelas de igual largura e distinto diâmetro.
Fá-lo com perícia e desembaraço.
Por fim, com esmerado cuidado, deposita-as num pequeno prato de sobremesa, cobre-as de acuçar e entrecortando a conversa em curso, diz-me com veemência.
"- Aguarda um pouco! Deixa o açucar entranhar-se!"
Anuo com a cabeça. Ela lembra-me Bacall na pose e nos trejeitos. A sua beleza esvai-se no rasto dos dias e das dores, mas algo nela permanece intenso e irredutível.
Não me abraça, não me beija. Corta-me laranjas que cobre de açucar, afaga-me a cabeça e, ao seu jeito, mima-me.
"- Fazer amor!?!! ...O que é isso de fazer amor se não uma idiotice literária?!
Temos relações sexuais, damos uma queca, como dizem os jovens...não fazemos amor!"
Ele sorri e pisca-me o olho. Ela dedica-se a desnudar uma outra laranja. Desta vez, é para ele. Na sua voz pausada, continua a dissertar sobre a natureza desse momento em que dois corpos se entrelaçam. Quando termina de descascar essa outra laranja, sai para depositar em sítio devido as perfumadas sobras. Ele alcança o meu braço com a mão e, de novo, com um sorriso me diz.
"- Sabes...quando amamos alguém, quando o que sentimos é intemporal, e sabemos que não se esgota senão na eternidade... existem momentos, desse contacto físico entre dois corpos, em que nos aproximamos tanto, que por um instante, por um instante...somos só um e não dois...E, o que sentimos é cristalizado num instante que perdura em nós porque saboreámos um trago de intemporalidade... E, aí, fizémos amor sim!"
Ela regressa. Ele silencia-se.
Eu sorrio, sei que ele tem razão.
Tuesday, May 05, 2009
Drum Solo
Max Roach
[http://www.youtube.com/watch?v=-y8Il-yRz_A]

Não dormi. A noite foi inundada por pesadelos e suores frios. Minutos incontáveis que se somavam numa sequência infinita. Nem o descanso, pela exaustão, a manhã me trouxe. À hora devida, organizei o trabalho do dia. As reuniões que se impunham preparar, as aprovações pendentes, a distribuição de tarefas... Dez mil pequenas coisas que me ocuparam o tempo e a mente. Quando saí, já tarde, a criança nascera, logo ali, a um passo de casa. Tão perto e tão longe.
Ele telefonou-me. Enlouquecia senão falasse. Encontrei-o abatido, trémulo, exausto.... O dia fora rico em visitas preocupadas com a mãe, com a criança, pouco com ele. Falou do inferno da véspera e da noite, falou do medo, da angústia que o abarcara. Esse medo primitivo e quase irracional que nos faz recear pelos que amamos. Depois, à cautela, levou-me ao berçário e talvez porque a ninguém lhe fora ainda permitido pegar, depositaram-no nos meus braços. Os esforços infrutíferos para que nascesse naturalmente estavam espelhados nele e enormes zonas verde-arroxeadas cobriam-no. Estendi-o ao pai que o recusou tremulamente. “Não! Não consigo!” Voltou-me as costas e encaminhou-se para o quarto. Ela não recuperara ainda. Faltava-lhe a força e o alento, mas prontamente perguntou pela cria. Coloquei-o nos seus braços e aninhou-o em si. Quando a fraqueza regressou, pediu-me que o segurasse. Assim o fiz para de novo a ver sucumbir.
Era tempo, decidi. Encontrei o seu olhar e estendi-lhe o filho. Por um instante, a tensão foi palpável, depois desvaneceu-se e já tranquilo, ele acedeu e pegou-lhe.
Monday, May 04, 2009
After Midnight
Coleman Hawkins
(Coleman Hawkins, ts; Thad Jones, t; George Duvivier, b, Eddie Costa, p&v, Osie Johnson, d)
[http://www.youtube.com/watch?v=7Cduxc3_1ZI]










