Anonyma's
May 27, 2010
No próximo mês, a grande maioria de nós verá o seu rendimento mensal reduzido, em prol das medidas delineadas de combate ao défice excessivo. Adicionalmente, assistiremos a uma súbida gradual do custo de produtos e serviços e a uma redução sistemática dos benefícios fiscais. Quer isto dizer que a "gordurinha" dos reembolsos de irs, antes permitida a algumas famílias, pode reduzir-se significativamente com sérios impactos na economia doméstica e consequentes efeitos de escala para todos nós. Face ao nível de endividamente verificado e à (in)capacidade financeira do País, a situação não me parece de todo inesperada, embora entenda que a natureza do nosso endividamento, ao recair sobre produtos com uma maior resiliência e menor depreciação - maioritariamente de habitação - é garante de menor risco. Caberia talvez aos orgãos de comunicação social e à classe política prestar os devidos esclarecimentos, no sentido de evitar a inoperância e a inércia resultantes dos cenários de catástrofe largamente difundidos, mas talvez não se possa esperar de duas raças em vias de extinção semelhante clarividência. O certo é que nestas coisas, eu como muitos de vós, e muito contrariamente a essa imagem poética de um país com um olhar melancólico de si mesmo, entende que se há trabalho a fazer, então que se trabalhe. No entanto, observo com cepticismo este súbito ataque de virtuosismo do filho mal comportado e revisito com temor as palavras de Saldanha Sanches: "Em qualquer caso, a justiça fiscal é uma questão que não se coloca só do lado da receita pública. Receita e despesa são o verso e o anverso do problema da justiça fiscal. É também muito provável que o esforço financeiro venha a atingir a segurança social, as pensões, as reformas. Ora, de nada serve aumentar o IVA, ou tributar mais-valias, se o Estado continua a esbanjar recursos. No esbanjadouro são muito claros dois tipos de papa-reformas: as obras públicas desnecessárias e os papa-reformas em sentido próprio. " (in Os papa-reformas, por J.L.Saldanha Sanches em 20 de Maio de 2010 ) e se tivermos em consideração que: "Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética. " (in Os papa-reformas, por J.L.Saldanha Sanches em 20 de Maio de 2010 ) e que os investimentos em Educação, em Justiça e Inovação serão quase inexistentes, receio que o caminho seja longo, muito longo!May 24, 2010

A minha primeira viatura custou-me uma pequena grande quantia, financiada com os tostões ganhos num part-time que me ocupava todas as horas disponíveis, entre aulas e estudo. Quinhentos paus (se é que alguém ainda se lembra do que isso é!) de gasolina custeavam as voltinhas da semana e, tão somente quando os paus já não esticavam, andava-se a pé. Aos dias de hoje, a minha bela bomba estaria certamente num desses cemitérios, que se amontoam um pouco por todo o jardim à beira-mar remediado, para canibalização de chapa e de peças.
O certo é que duas pancadas, capô levantado, uma cotovelada certeira, porta direita traseira aberta, bico do sapato em riste, logo ali em cima do acelerador, pegou(!), dois punhos fechados no tablier, luz de aviso desligada... E, no entanto, apesar da "mecânica procedimental" abundante, esta rude criatura jamais me deixou apeada ou infeliz e, quando por fim a vendi, confesso a tristeza com que o fiz.
Agora...estas "coisas modernas" tiram-me do sério! Desligam-se ao menor sinal de impropério ou vernáculo, zumbem-nos nos ouvidos até à exaustão, por cada minúscula - assim pequenina, pequenina, ínfima mesmo - atrocidade e deixam-nos apeados por dá cá aquela palha com a indicação de que necessitam de um "reboot"(?!!!)!
Ai as saudades que eu tenho do meu lindo, lindo, chaço!
May 23, 2010
Elevation of Love
Esbjorn Svensson Trio
[http://www.youtube.com/watch?v=dUFP3UCAQGg]
May 13, 2010
If I were blue
Patricia Barber
[http://www.youtube.com/watch?v=_i6LQBhOxg8]

April 11, 2010

April 05, 2010
Blade Runner Sound Track
by Vangelis and Don Percival

Os vestígios de folhas arrancadas são visíveis na lombada escurecida pelo tempo e pelas andanças constantes. A areia, o sol, a água salgada e a saliva do grandalhão fizeram o resto, tornando-o num registo de palavras soltas que um elástico negro insiste em manter contidas. As palavras têm o peso ou a importância que as deixamos ter. Se as lançarmos no vazio e as deixarmos tombar por si, por vezes, desfazem-se em mil grãos como a areia da praia. Outras vezes, revoltam-se, exaurindo-nos sem dó ou piedade contra as arribas batidas na preia-mar e cabe-nos a nós segurá-las com a firmeza devida.
Tenho escrito. Não aqui realmente, mas nesse caderno preto que perspira da soma dos meus dias e cujas páginas arranco, porque algumas viagens em nós não se desejam contemplativas. Observo as cores que se misturam e que uso sem desculpa ou pejo. O passado enterrou-se numa quarta-feira de cinzas. O presente é agora. ...e o futuro? Vive-se ainda hoje porque o amanhã é incerto.
Não sou tudo o que poderia ser, é certo, mas diabos me levem se não o tento ainda!
February 08, 2010
Autumn Leaves
Wynton Marsalis & Sarah Vaughan
[http://www.youtube.com/watch?v=KZbI2VZF9K8]

Um pavilhão branco numa envolvência verde atapetada de pequenas flores lilases. O turquesa anisado dos pavões e o seu grito contínuo numa tarde de sábado. Quinze mesas em tons pastel, quinze ovos em tons pastel e pequenas figuras, de ébano e alvas, que se contrapõem em interações sociais, configuradas usos e costumes, pelas vicissitudes da ocorrência e não pela inocência da natureza. Simples são as figuras. Simples as mesas que as suportam. Simples as palavras dedilhadas, mas simples não foram as emoções que me habitaram bem depois de uma simples visita...
[Debret by Vasco Araújo]
Pavilhão Branco do Museu da Cidade
15 de Janeiro a 7 de Março 2010
January 31, 2010
Sweet Georgia Brown & Tea for Two
Anita O'Day
[http://www.youtube.com/watch?v=agp2on83hrA]
C. verificou se a água estava quente, após o que depositou a pequena criança no interior da banheira. Não deixando nunca de lhe deitar um olho, lançou na água um pato de borracha amarelo, uma tartaruga verde de plástico e um jacaré azul bebé. Depois, enquanto a criança se distraía em cantilenas incompreensíveis, foi-lhe molhando o couro cabeludo que encharcou de champô e massajou suavemente. Percorrendo mentalmente a lista de recomendações da Senhora, prosseguiu com ouvidos, pescoço, cotovelos, joelhos até ter a certeza de a ter satisfeito por completo. Quando terminou, concedeu-se a uns minutos de brincadeira com a criança. Por fim, enrolou-a no enorme toalhão e aquietou-se com ela no regaço. A rotina repetia-se diariamente. A esta seguir-se-ia o jantar e a hora de deitar. Era preciso cumprir as indicações da Senhora.C. nunca gostara da escola e das tarefas diárias na quintinha, o vislumbre de outros mundos, outros saberes inquietara-a desde cedo e esta fora a oportunidade possível. Acumulava as aulas nocturnas com a tarefa de velar pelas endiabradas crianças que mimava até ao limite do seu ser.
Domingo de manhã. Uma tea light imaculada olhava para mim, uma apenas, no cesto nenhuma outra. Dez horas, Ikea e um mundo de criaturas arrastando os pais, os sogros, os filhos, os enteados, os amantes, os amigos...E, depois, um vagido quase inaudível de um recém nascido. Não mais do que uns dias. No corpo da mãe eram ainda visíveis os vestígios de um parto recente. Transportava a criança junto a si, enquanto o marido, à sua frente, desgastava-se em abrir caminho por um mar de gente àvida de promoções e descontos. Jovens e, no entanto, tão velhos...
Passaram já muitas gerações desde C., mas muitas teses depois, as famílias estão hoje bem mais depauperadas de afectos e de auxílios do que antes.
January 24, 2010
De novo a minha mão toma o peso da velha raqueta. O seu azul brilhante está agora um pouco mais baço, as cordas gastas, o punho puído. No ar, dança já, a bola imaginário que o meu amigo de quatro patas parece adivinhar e seguir com o olhar. O gesto que se repete, o impacto que atinge o pulso e se propaga ao antebraço, uma antiga lesão que parece retinir por todo o corpo e um eco seco no campo vermelho batido pelo sol da manhã. Depois, a ilusão desfaz-se e é de novo a velha raqueta na minha mão. O grandalhão suspira. Outra bola que lhe perdi, pensará talvez.Não visito o velho campo faz tempo, derramando, por vezes, essa eternidade de décimos de segundos dados em trivialidades sem importância ou valor. Também nós nos facilitamos, é certo, mas hoje, em nome de uma vertigem, insisto.
January 18, 2010
Lush Life
Queen Latifah
[http://www.youtube.com/watch?v=VMoelYEqgYQ]
O rio quase gelou. Sobre a superfície luzidia, patos descalços nas pontas dos dedos. Aqui e ali, na representação chiaroscuro das árvores, moedas de água relembram uma força antiga. A neve solta, da véspera, despedaça-se sob os meus pés. Está frio. Está sempre frio. Sinto a pele do rosto a arder. Talvez, agora menos do que antes. Habituo-me, creio, e assim prossigo até onde os passos me levam. Hoje, a viagem é dentro de mim. A hora mudou. A fénix renasceu. A saber ainda que cores trará. December 28, 2009
On the sunny side of the street
Cyndi Lauper
[http://www.youtube.com/watch?v=47t-LB46IpM]
Grab your coat and get your hat
Leave your worries on the doorstep
Life can be so sweet
On the sunny side of the street
Can't you hear the pitter-pat
And that happy tune is your step
Life can be complete
On the sunny side of the street
I used to walk in the shade with my blues on parade
But I'm not afraid...this rover's crossed over
If I never had a cent
I'd be rich as Rockefeller
Gold dust at my feet
On the sunny side of the street
I used to walk in the shade with them blues on parade
Now I'm not afraid... this rover has crossed over
Now if I never made one cent
I'll still be rich as Rockefeller
There will be goldust at my feet
On the sunny, sunny side of the street

Até já.
December 13, 2009
Back to the tracks
Tina Brooks
[http://www.youtube.com/watch?v=_2CdpgTzcJo]
Encontro-o assim, perdido, largado na inconstância das facilidades procuradas. A relutância dos outros espelha-se em mim e hesito. Depois cedo e estendo-lhe a mão. A magreza ocupa-lhe o corpo onde são visíveis as mazelas dos últimos dias. Observo-o uma vez mais e questiono-me sobre a minha natureza e o amor que me prende as estas criaturas inanimadas e tão cheias de alma. São certamente os primeiros dos últimos, condenados à incerteza. Já foram o veículo do sonho, da esperança, da liberdade, dos afectos, serão sempre o equilíbrio da mesa, calor em noite gelada, bloco de notas, obra de arte, papel de embrulho... higiénico...a minha dúvida é se amanhã não serão apenas um artefacto ultrapassado de um mundo que ousou pensar, questionar-se, inquietar-se e que agora bovinamente se aquieta.December 08, 2009
Toninho Horta
[http://www.youtube.com/watch?v=Fx7yPCWu8t0]
Restamos aqui, na casa em que o jogo nos depositou. Animais de hábitos, resistimos, uma e outra vez, embalados que estamos pela permanência e pela imutabilidade. Não mudamos, dizem. Não mudamos – nunca! - enraizados neste chão de flores que nos viu crescer. Mas, no momento, em que uma folha de outono repousa por fim, o olhar mudou e não somos mais o que fomos, e uma certa estranheza cresce em nós.
November 29, 2009
St.Thomas
Sonny Rollins
[http://www.youtube.com/watch?v=v4DTR0I7xhA]

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção
São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação
Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia
Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.
By Alexandre O'Neill
November 28, 2009

November 15, 2009
Almost Blue
Chet Baker
[http://www.youtube.com/watch?v=alUSx_X_za8]

Creio que nada substitui a leitura de um texto, nada substitui a memória de um texto, nada, nenhum jogo.
By Marguerite Duras
Mas há quem tente. Desesperadamente, até. Há sementes que não interessa que germinem.
November 07, 2009
Grand Wazoo
Ed Palermo Big Band
[http://www.youtube.com/watch?v=vB1AhuMgczQ]
Contigo, construí bolos de bolacha e café que se erguiam aos céus.Contigo, fiz da horta reino de duendes e de fadas.
Contigo, corri no pântano em busca de príncipes verdes.
Contigo, saltei muros e portões em busca da fruta oferecida.
Contigo, fui descalça à igreja...porque isso não importava.
Contigo, sentei-me ao lume e adormeci sob as estrelas.
Contigo, sonhei e aprendi que o sonho é chama de alento.
Sem ti, caminho, sempre, porque assim mo ensinaste...
...Mas fazes-me falta...
.Muita.
October 12, 2009
Spiritual Awakening
Wynton Marsalis Septet
[http://www.youtube.com/watch?v=C9J1dpXftMA]

Nasci num outro país. Não aqui. Não neste chão de pouca memória.
E, mesmo assim, votei. Uma e outra vez.
Não por mim. Nem por vós.
Não por uma causa. Hoje, poucos saberão o que isso significa.
Não por uma personalidade. Narciso é uma criatura temperamental que me entedeia.
Não por um programa ou por um projecto. Planícies desertas de uma certa forma de estar.
Nem mesmo pelo dever ou pelo direito.
Votei, isso sim, por uma ideia que já aqueceu e guiou multidões.
Votei por uma palavra que, se não cuidada, acabará perdida em velhos livros empoeirados ou obscuros acordos ortográficos.
Votei por ti Liberdade.
October 02, 2009
Open Your Eyes, You Can Fly
Lizz Wright
[http://www.youtube.com/watch?v=FB5WESDsRGI]

Ontem estava ali, tropeçando nos atacadores das botas ortopédicas, calções rotos, camisola de lã imensa, joelhos e cotovelos esfolados e um cabelo eriçado que fugia a pentear. Os tostões da semana esticados ao limiar do inverosímil, enquanto a jornaleira atrasava, dia após dia, a devolução de livros e revistas até que o meu pequeno orçamento me permitisse acomodá-los. Foi assim que conheci a Mafalda. Curiosa, pertinente, íntegra. E, num mundo de certezas absolutas, onde a dúvida não tinha chão, descobri casas de cimento armado repousadas em mares de incerteza, habitadas por respostas fáceis de porque sim e porque não.
Pelas perguntas que fizeste nascer em mim, bem hajas Mafalda e Muitos Parabéns!
(E para todos vós que me acompanham, nesta aventura de momentos, um muito especial fim de semana.)
September 30, 2009
Somewhere Over the Rainbow
Keith Jarrett
[http://www.youtube.com/watch?v=eq0EWNuR1H8]
A cidade adormece e aquieta-se. Através da vidraça aberta, observo os animais da noite para os quais o dia não basta e a claridade é uma maldição. No prato, a agulha acorda-me do sonho e relembra-me que a perfeição de um momento não se esgota num minuto. Impõe-se recomeçar, uma e outra vez. A eternidade espera-nos, não a façamos pois esperar... Essa é a liberdade que invoco, uma criatura endeusada a que muitos aludem mas que poucos encaram. O poeta rebela-se e grita-me que é livre. Recusa a servidão dos burocratas e das massas mas cai na servidão da negação. Indigna-se perante o meu sorriso mas no espelho do seu parco quarto reconhece o castelo de cartas e o sentido dessa ausência de liberdade que lhe atribuo.September 28, 2009
Once I Dreamt A Tree Upside Down
Jan Garbarek Group
[http://www.youtube.com/watch?v=Uw4oc5fKzO4]
Quando éramos pequenos, viajávamos em carros sem cintos e airbags...viajar á frente era um bónus. Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e... sabia bem.
Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso. Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo...e só depois nos lembrávamos que faltavam os travões... Ao acabar num silvado, aprendíamos.
Saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso...
Não tínhamos Play Station, X Box ou Nintendo!
Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD ou chats na Internet!
Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos á rua!
Jogávamos ao elástico, à barra e à bola até doer!
Caíamos das árvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal.
Havia lutas com punhos mas sem sermos processados.
Batíamos ás portas de vizinhos, fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.
Íamos a pé para casa dos amigos.
Acreditem ou não... íamos a pé para a escola; não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.
Criávamos jogos com paus e bolas.
Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem.
Eles estavam do lado da lei.
Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.
Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.
És um deles?
Parabéns!
Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, 'para nosso bem'.
Para todos os outros que não têm a idade suficiente, pensei que gostassem de ler acerca de nós.
Isto, meus amigos é surpreendentemente medonho... E talvez ponha um sorriso nos vossos lábios.
A maioria dos estudantes que estão hoje nas universidades nasceu em 1986, ou depois. Chamam-se jovens.
Nunca ouviram 'we are the world' e 'uptown girl' conhecem de Westlife e não de Billy Joel.
Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle.
Para eles, sempre houve uma só Alemanha e um só Vietname.
A SIDA sempre existiu.
Os CD's sempre existiram.
O Michael Jackson sempre foi branco.
Para eles, o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo tivesse sido um deus da dança.
Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie, são filmes do ano passado.
Não conseguem imaginar a vida sem computadores.
Não acreditam que houve televisão a preto e branco.
E, portanto, agora vamos ver se estamos a ficar velhos:
1. Entendes o que está escrito acima e sorris.
2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada.
3. Os teus amigos estão casados ou a casar.
4. Surpreende-te ver crianças tão á vontade com computadores.
5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis.
6. Lembras-te da Gabriela (...da primeira vez).
7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos.
8. E vais encaminhar este e-mail para outros amigos porque achas que vão gostar.
Sim, estás a ficar velhor...mas tivemos uma infância do caraças!
By Autor Desconhecido
August 12, 2009
de sol
a intransigência
de qualquer cidade
penetrou-me
bastarda de mim mesma
igualdade repleta
de pesadelos
infinitamente brancos
o arrepio das árvores
nos ombros dos profetas
noites incompletas
onde me exijo
urgência
Inquietação, by Maria Teresa Horta
August 02, 2009
My Foolish Heart
Bill Evans
[http://www.youtube.com/watch?v=a2LFVWBmoiw]
Conheço esse meu país de terra queimada. A visão de um inferno flamejante e chão carvão, onde nem a esperança subsiste numa réstea de vida. Conheço o cheiro da carne dos animais de estábulo perdidos entre línguas de fogo solto, os seus bramidos de dor e terror, que enchem de negrume o mais brando dos corações e enlouquece os vivos. Conheço as lágrimas daqueles a quem não restou nada e a quem até os soluços são estertor de desespero. Conheço o gosto da fuligem que se entranha em nós e do travo amargo na língua, do cheiro avassalador que nos impede de respirar. Conheço esse pesar de um coração rasgado quando a cada passo, no rescaldar das cinzas, se encontra a morte do que já foi vivo. Conheço esse silêncio de vida por onde apenas o vento assobia e que nos entristece a alma.
E, talvez por isso, quando a notícia relatada é de que a "GNR diz que dados de fogos e da área ardida em 2007 e 2008 foram alterados "por desconhecidos""(in Publico, 02 de Agosto de 2009), quando não se sabe o que ardeu, como ardeu, e porque ardeu, e ninguém se parece sequer importar ou indignar... no meu coração cresce a chama que já vi deitada por terra.
July 27, 2009
What's New
Clifford Brown
[http://www.youtube.com/watch?v=juuN7_rTBDo]
Não sou um bom garfo, na medida em que, o meu organismo prontamente se recusa a processar determinado tipo de alimentos. Resultado, talvez, de uma juventude inquieta e de uma idade adulta em que os meus espaços e tempos são, por demais, contaminados com urgências e importâncias profissionais de seriedade ambíguas. O facto é que independentemente das limitações que tolhem alguns dos meus movimentos, as conversas francas e fartas a uma mesa de refeições são, não só uma das mais belas memórias de um tempo ínfimo da minha meninice, como um prazer redescoberto, mas que exige de mim bem mais que simples habilidade. Substituir sabores, cores, aromas sem desvirtuar a arte de outros, mais do que um acto de criatividade duvidosa é uma tarefa espinhosa, por vezes, com resultados francamente inesperados...outras vezes, nem tanto!Dissertação Culinária X
Numa língua de azeite, ao lume, depositar 2 a 3 chávenas de chá de arroz. Deixá-lo dourar um pouco, mexendo bem. Depois, cobri-lo com água. Temperar com sal e pimenta. Não deixar cozer de mais. Quando pronto, coá-lo e passar por água fria.
Numa panela deitar uma cebola com casca, piri-piri, e sal grosso. Deixar ferver. Colocar gambas para 3 a 4 pessoas. Algo entre 800g a 1kg, diria. 4 min e estão prontas. Descascar.
Cortar cebolinho e alho aromático, misturar com raspa de limão e pinhões. Juntar tomate de cacho, cortados aos cubos, o arroz e as gambas. Azeite, umas gotas de limão e um pouco mais de pimenta. Com cuidado, envolver todos os ingedientes.
E depois...!!?
Frigorífico até os convivas chegarem.
E, se sobrou limão... é óptimo para limpar o recipiente da gambas e disfarçar o cheiro, antes dos primeiros curiosos nos entrarem cozinha dentro, inquirindo-nos sobre o que se come por aquelas beiras.
As gotas de limão mantêm a refeição fresca e divertido mesmo, é ter a cozinha toda arrumadinha e ver um ou dois de rabo para o ar a espreitar o forno, na tentativa vã de perceberem exactamente o que vão degustar!
Acompanha com algo fresco, boa companhia e o meu doce Chet, obviamente!
July 23, 2009
A cada cordeiro de espuma branca, a linha de água recuou um pouco mais. A marcar essa fronteira invisível, entre a terra e o mar, despojos do oceano que coleccionei e depositei na toalha branca de algodão grosso. A outro ser caberia, depois, deleitar-se e espantar-se com os pequenos invólucros calcários rugosos e coloridos. Momentos do maravilhoso que acompanham todos os passos incertos da meninice cuidada, e que nos aquecem o coração, anos mais tarde, em dias de prolongada trovoada.No corpo, sal, água e o creme branco, armadura de Verão, com que insisto em me vestir, cheiros de maresia e civilização que se misturavam numa troca de odores.
Nas semanas em que, a aurora e o pôr do sol, se tocam no meu horizonte de deveres, este deambular do espírito e do corpo facilita-me o descanso, que mais do que merecido, é exigido.
E depois do convite das águas, que melhor do que um pouco de Jazz na quentura apetecível da noite?
É certo que, o som era doce, como chocolate quente em dia de ventania, e que de Francesco Cafiso esperaria mais, muito mais.
A criança que era, não será talvez ainda o homem que poderá ser, mas pouco estragaria tão prazenteiro dia.
E, já noite estrelada, o meu coração apenas vacilou, um pouco, perante uma plateia em que pobremente se falava português.
July 14, 2009
Miroslav Vitous
[http://www.youtube.com/watch?v=L8rL5ML0fwU]

das palavras
com tectos de saliva
e quartos grandes
na união total
e Humidade
do deslizar a vida
na garganta
habito as manhãs
a cor - o tempo
a curva adocicada da vontade
aquilo que se prende
e apreendo
aquilo que desfaço
e não disfarço
Depois a vastidão
o riso e o sossego
sossego sem ser paz
nem aventura
Respiro o que não tenho
nem viagem
habito o que descubro
e a cidade
O corpo
a revolta
a pele os membros
O ritual interno
e a ternura
E se as palavras tenho
como armas
moldando-as uma a uma
conscientemente
é de habitá-las hoje
que suponho não mais poder
usá-las conivente
Palavras by Maria Teresa Horta
July 12, 2009
Chick Corea, Bob Berg, Eddie Gomez, Steve Gadd
Straight No Chaser
[http://www.youtube.com/watch?v=VjjkOQWJ2ug]

As luzes da cidade acenderam-se faz tempo. No céu um enorme queijo redondo mordiscado por um Pierrot inquieto. Cresce, cresce lua! Traz o mar às nossas praias de areia branca e macia. "A lua mente, criança! Cuida que a lua mente!" Palavras de outras gentes e outras terras que ecoam no silêncio da noite fustigada por vento bravio. Sim, a lua mente e o quarto quase prenhe que vislumbro numa noite raiada e escura, prenúncio de outros dias de sol, mais não é do que o quarto minguante que se anuncia.
July 07, 2009
"Easy to Love"
Patricia Barber
[http://www.youtube.com/watch?v=41Of6sltTZY]
As caras fecham-se.Os rostos contorcem-se.
Os sorrisos desaparecem.
Os aumentos foram diminutos.
Mas existiram! Insisto.
Indignam-se, ripostam-me que mais era devido, mais muito mais...
Sorrio.
Apenas isso.
E abandono-os numa inquietação surda que lhes consome o resto do dia.
Cedo tempo meu em horas sem fim.
Sim, em justeza, mais seria devido, mas recuso-me a deixar que o assunto me escureça o dia.
Não é uma cedência.
O assunto foi endereçado da forma que considerei apropriada, mas não vivo em redor do meu umbigo.
Vejo, observo, apreendo.
E, por agora, rejeito apenas que me acompanhe num dia de sol e vento em que o rio se encrespa em mil gotas e um passeio apetece.
July 01, 2009
Brad Mehldau
[http://www.youtube.com/watch?v=8BVhwMfJTdA]
Nas paredes pequenos demónios vermelho-amarelados dançam a música que a brisa da noite lhes traz. As velas, assim acesas, emanam um cheiro forte que se propaga pela casa. Não gosto dessa escuridão absoluta que afasta do céu a lua e aproxima das nossas crias antigas criaturas das trevas, mas este cintilar evoca a memória da lua cheia em mar de vento norte e aquece-me o coração. Hoje não chove, no Zen passa When It Rains. Memórias de uma praia de ondas soltas e bravas onde as gotas empapam os incautos, em dias de tempestade, e alguns se arrastam quebrados na areia da praia. Sangue e sal que se misturam e não se reconhecem, sentidos que latejam e mil dores que nos atormentam. Na vida como no mar, deixei que as ondas me escolhessem, deixei-me embalar, esqueci-me de mim e embati na areia. Hoje, no mar, aguardo pelo tubo perfeito, aquele que me acompanhe apenas e me devolva depois incólume. Na vida não há tubos perfeitos, mas ali naquela praia aprendi uma lição maior. Que quem ama, exige.June 27, 2009
[http://www.youtube.com/watch?v=JptCLHEMBvM]
- Até tu, Brutus?!!
- Sim, César, até eu!
Até eu, ensaiei a coreagrafia de Billie Jean e de Thriller!
Até eu, arrisquei o Moonwalk!
E, por isso mesmo, hoje, deixo-vos They Don't Care About Us.






