Wednesday, July 01, 2009

Nas paredes pequenos demónios vermelho-amarelados dançam a música que a brisa da noite lhes traz. As velas, assim acesas, emanam um cheiro forte que se propaga pela casa. Não gosto dessa escuridão absoluta que afasta do céu a lua e aproxima das nossas crias antigas criaturas das trevas, mas este cintilar evoca a memória da lua cheia em mar de vento norte e aquece-me o coração. Hoje não chove, no Zen passa When It Rains. Memórias de uma praia de ondas soltas e bravas onde as gotas empapam os incautos, em dias de tempestade, e alguns se arrastam quebrados na areia da praia. Sangue e sal que se misturam e não se reconhecem, sentidos que latejam e mil dores que nos atormentam. Na vida como no mar, deixei que as ondas me escolhessem, deixei-me embalar, esqueci-me de mim e embati na areia. Hoje, no mar, aguardo pelo tubo perfeito, aquele que me acompanhe apenas e me devolva depois incólume. Na vida não há tubos perfeitos, mas ali naquela praia aprendi uma lição maior. Que quem ama, exige.

Saturday, June 27, 2009


- Parabéns, o Senhor tem a magia de Chagall!!
- ...a poesia de Renoir!!
- ...o vigor de Van Gogh!!
- ...a liberdade de Picasso!!
- ...a fineza de Modigliani!!
...
- "eu queria ser eu!"

Art By Quino

Bom (Resto) de Fim de Semana




[http://www.youtube.com/watch?v=JptCLHEMBvM]

- Até tu, Brutus?!!
- Sim, César, até eu!
Até eu, ensaiei a coreagrafia de Billie Jean e de Thriller!
Até eu, arrisquei o Moonwalk!
E, por isso mesmo, hoje, deixo-vos They Don't Care About Us.

Sunday, June 21, 2009


As minhas mãos mantêm as estrelas
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas

in As minhas mãos
by Sophia de Mello Breyner Andresen

Thursday, June 18, 2009


Tears Dry On Their Own
Amy Winehouse
[http://www.youtube.com/watch?v=ibyHm7kZGSo]
Meu copo de leite não está quente nem frio, mas amargo e escuro exalando um aroma profundo a café. A torrada de pão de centeio pinga manteiga que gosto de lamber, como uma criança pequena, e partilhar com o gato que me ronrona no colo. Resmungo como resmungo sempre que não sei o que fazer. Sorris-me e dizes que mimo é mimo, não é para gerir, só para aceitar. Não resisto. Contigo não há moedas de troca ou sentidos escondidos, e depois estou cansada, demasiado. Mantenho as presas ocultas e as garras fechadas. Aqui e agora, não preciso delas. Obrigas-me a erguer, a pôr-me de pé, a andar e insistes, insistes sempre. Sorris de novo, falas-me do sentido da vida e recordas-me que pertenço ao mar e que, do seu jeito possessivo e terno, ele cuidará de me trazer suave vento e boas ondas.
Bem hajas amiga, pela quietude que instalas no meu coração.

Sunday, June 14, 2009

Alfie's Theme
Sonny Rollins

[http://www.youtube.com/watch?v=mCDv5NK54u0]


Poema das coisas

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
O saber-se como é, onde é que está e como,
O aguardar sem pressa, e atender-nos
Da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
Esperam as coisas que o desespero as busque.

Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
A cadeira onde a memória está sentada,
A mesa, o copo, a chávena, o relógio,
O móvel onde alguém permanece encostado
Sem volume e sem tempo,
Nós próprios, quando os olhos indignados
Nas pálpebras se encobrem.

Põe-se a pedra na mão e a pedra pesa,
Pesa connosco, forma um corpo inteiro

Fecha-se a mão e a mão toma-lhe a forma,
Conhece a pedra, estende-lhe o feitio
Sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão e a mesma pedra avulta.

Se fosse o amor dos homens
Quando se abrisse a mão já lá não estava.

by António Gedeão

Monday, June 08, 2009

Explicadíssimo! Hoje, distraí-me um pouco...estava de férias e, por lapso, fui trabalhar...Só pode ter sido do café! Lol

Na frescura da manhã avistavam-se idosos em marcha rápida e decidida. Gentes de outros usos e tempos, vivenciados na importância de se deitar o voto. Elas de carteira e saco de plástico apertado contra o sovaco, eles de boné ou chapéu bem enterrado na cabeça para que o frio ar matutino não os apanhasse desprevenidos nas enormes clareiras que lhes sulcam as fontes. Mochila às costas, bicicleta debaixo do ombro e uma camisola cor de rosa, linda, linda...que amo mesmo! Fui votar nestes preparos. Se ela fosse viva ter-me-ia dito que não era apropriado, que era falta de respeito, teria insistido talvez para que calçasse os agulha pretos e que vestisse algo sóbrio.
A sala estava na penumbra, o que certamente contribuía para o ar ensonado dos elementos presentes. Dois ou três minutos bastaram-me para dar por concluído o que ali me levara.
Ao fim do dia, liguei a televisão. Anunciavam-se conquistas intemporais, o recomeço de uma nova era, tempos de mudança. Os sorrisos eram os mesmos de sempre. Plásticos. Falsos. Dissimulados. A palavra que mais se ouvia...Vitória. Eu?! Eu teria escolhido uma outra... Vergonha. Porque ontem não ganhou ninguém e perdemos todos um pouco mais... liberdade, consciência, futuro, direitos...ontem de novo empenhámos algo que já houve tempo não tivemos...e ninguém se pareceu importar.

Sunday, June 07, 2009

Autumn Leaves
Chet Baker & Paul Desmond

As fadas que brincavam no lago, do antigo carvalho verde, desapareceram. O ogre que habitava no fim do arco-íris partiu, para parte incerta, e nem o seu caldeirão nos deixou como réstia de um sonho. Os duendes da clareira amarela nunca mais foram vistos e o lanche, que eu insistia em deixar para trás na esperança de os rever, apodrecia dia após dia. Até os animais o pareciam rejeitar como se, por graça de algum mistério ininteligível para mim, adivinhassem que a hora chegara. E, chegou...cresci. 
A antiga magia dos espíritos da terra esfumou-se como se apenas às crianças pequenas fosse dada a benção de a conhecer e os adultos eternamente condenados a desejá-la apenas. 
E, no entanto, ontem, na tenda dos nómadas um pouco da antiga magia bafejou mais que apenas as crias do homem.
Varekai. Em qualquer lugar.



Ele senta-se. Olha-me e solta um longo suspiro. «Que estranho cachorro me trouxeste para casa! Não és lá muito boa a fazer escolhas, pois não? Não vês que ele se equilibra mal! Devias ter escolhido melhor!» Ergue-se e cheira a pequena criatura que mal se sustém. Vejo-a tentar caminhar na minha direcção para rapidamente descobrir que apenas consegue andar para trás. A frustração estampa-se-lhe no rosto. O cão suspira de novo e colocando-se atrás dela, empurra-a com o focinho até mim. Depois senta-se e parece dizer-me «Agora, segura-o! Pega nele como deve ser e vê se não faz mais disparates! Vou fazer uma sesta e quero sossego!» Estira-se na sua enorme almofada e o riso solto da minha pequena criança ecoa pela casa.

Tuesday, June 02, 2009

Ela permanece imóvel na expectativa dos minutos seguintes. Em pé, de costas para si, ele agita-se um pouco, meneando a cabeça. Depois, sabendo-a irredutível, deixa-se cair para trás e ela ampara-o, não o deixando alcançar o chão. Ela é baixa, pequenina até, mas enorme na tenacidade e nas certezas do seu coração. Ele, pouco preparado para tamanhas fragilidades, vê-se assim exposto nos braços da esposa mas, por uma vez, aquieta-se e resiste à voz que lhe diz que há coisas que um homem não faz. 
E, eu pergunto-me,... quantos de nós estaríamos dispostos a executar semelhante exercício?
Sim, sim. Eu sei...não é uma questão de confiança!!
Não? Claro que não.
Então... é uma questão de exactamente o quê?

Monday, June 01, 2009



Parlami d'amore, Mariù
Enrico Rava
(Enrico Rava, Enzo Pietropaoli, Piero Ponzo e la Banda Osiris, Stefano Bollani, Gianmaria Testa)

[http://www.youtube.com/watch?v=xaHfe5Dklcs]

Por tudo o que nós deveríamos ser por e para vós, e não somos, este post é vosso.

P.S.- Adoro-vos diabretes!
;)



Sunday, May 24, 2009



How Deep Is The Ocean
Paul Motian Quintet
(Paul Motian, d; Marc Johnson, b; Lee Konitz, as; Joe Lovano, ts; Bill Frisell, g)

[http://www.youtube.com/watch?v=QSkFI-rTtUM


Vivera com ela aquele tempo todo sem saber que eram tudo coisas que ela detestava. Coisas que, em si mesmas, não passavam de ninharias. Coisas tão triviais que até davam vontade de rir. Nada que merecesse ser levado a sério. O mais certo era o assunto cair no esquecimento daí a meia dúzia de dias.
E, no entanto, não foi bem isso que aconteceu. Aquilo continuou a dar-me que pensar, a incomodar-me como uma minúscula espinha de peixe cravada na garganta. Podia muito bem tratar-se de algo mais importante do que parecia assim à primeira vista. Se calhar era isso mesmo: um facto crucial. Ou podia acontecer que aquilo fosse apenas o princípio de um problema mais grave, para não dizer fatal. Se calhar encontrava-me no limiar de um mundo, mundo esse habitado unicamente por Kumiko e que me era totalmente desconhecido. Aos meus olhos, via-o como um quarto enorme e escuro. Eu andava pelo quarto com um isqueiro minúsculo na mão. Mas a chama do isqueiro só me deixava ver uma ínfima parte da divisão.
Conseguiria ver alguma vez o resto? Ou envelheceria e morreria sem chegar a conhecê-la bem? Se era esse o caso, que sentido tinha a minha vida de casado? Que sentido fazia a minha vida, uma vez que vivia e dormia na mesma cama com uma estranha?

by Haruki Murakami
in Crónica do Pássaro de Corda

Wednesday, May 20, 2009

You'd Be So Nice To Come Home To
Chet Baker
[http://www.youtube.com/watch?v=nB1Lr6HBbu0]

Os abutres já tinham partido. A carcaça estava limpa, despojada de carne ou fibra, restavam somente ossos e pele. Ela lá estava à hora marcada, comprometida com o papel que tivera nas acções dos últimos dias.
O pé direito das paredes perdia-se em direcção ao céu e os corredores sem fim eram labirintos onde o filho maldito dos deuses me buscara antes quando seguia pela mão de um simples homem. Depois, tão somente uma carcaça abandonada, despida, vazia dos espíritos que antes ali habitaram.
Seguindo os rituais da tribo, os herdeiros tinham reclamado - ou talvez, pilhado - o que entenderam como seu. Agora, era a minha vez de o fazer. Mas o que reclamar? Morreram-me...Não haveria ouro, insenso ou mirra capazes de fechar a ferida, de suster a dor. Debruçei-me sobre os despojos e coloquei de lado preciosidades destinadas, por outros, à recolha camarária...Foi o que trouxe comigo... objectos irreparáveis, partidos, destroçados...
A cada ano após esse dia, empenhei-me neles, procurei artesãos e saberes perdidos, busquei técnicas e materiais. A cada um que recuperei, a ferida fechou-se um pouco mais e o meu coração aquietou-se, também ele, um pouco mais. E, olhando-os hoje, o meu espírito reconhece neles as chamas que os animam e que o meu intelecto rejeita.


Sunday, May 17, 2009

Edges Of Illusion
John Surman
[http://www.youtube.com/watch?v=BFE3140Lhw0]

Small little things. É nelas que a vida difere do amor. E, é nelas, que embato a cada passo falhado.

Thursday, May 14, 2009


Mandala
Jan Garbarek with Keith Jarrett 
(Keith Jarrett, p; Jan Garbarek, s; Palle Danielsson, b; Jon Christensen, d)

[http://www.youtube.com/watch?v=bA7fqYrQGps]

Numa pequena vila e estância na costa sul da França, chove, e nada de especial acontece.
A crise sente-se.
Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.
Subitamente, um rico turista russo, chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de 100€ sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.
O dono do hotel pega na nota de 100€ e corre ao fornecedor de carne a quem deve 100€, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar 100€ que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os 100€ a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os 100€ e corre ao hotel a quem devia 100€ pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.
Neste momento, o turista russo desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos 100€.
Recebe o dinheiro e sai.
Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.
Contudo, todos liquidaram as suas dívidas e a pequena vila costeira encara agora o futuro optimisticamente.

(Autor Desconhecido)

Wednesday, May 13, 2009

Remembering
Avishai Cohen Trio


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa
Estou vivo e escrevo sol

Sunday, May 10, 2009


Blue Train
John Coltrane
(John Coltrane, ts; Lee Morgan, tp; Curtis Fuller, tb; Paul Chambers, b; Kenny Drew, p; Philly Joe Jones, d)

[http://www.youtube.com/watch?v=S1GrP6thz-k]


Ela pesa a laranja na mão avaliando a olho nu a sua suculência. Depois, descasca-a sem ferir os gomos e parte-a em rodelas de igual largura e distinto diâmetro.
Fá-lo com perícia e desembaraço.
Por fim, com esmerado cuidado, deposita-as num pequeno prato de sobremesa, cobre-as de acuçar e entrecortando a conversa em curso, diz-me com veemência.
"- Aguarda um pouco! Deixa o açucar entranhar-se!"
Anuo com a cabeça. Ela lembra-me Bacall na pose e nos trejeitos. A sua beleza esvai-se no rasto dos dias e das dores, mas algo nela permanece intenso e irredutível.
Não me abraça, não me beija. Corta-me laranjas que cobre de açucar, afaga-me a cabeça e, ao seu jeito, mima-me.
"- Fazer amor!?!! ...O que é isso de fazer amor se não uma idiotice literária?!
Temos relações sexuais, damos uma queca, como dizem os jovens...não fazemos amor!"
Ele sorri e pisca-me o olho. Ela dedica-se a desnudar uma outra laranja. Desta vez, é para ele. Na sua voz pausada, continua a dissertar sobre a natureza desse momento em que dois corpos se entrelaçam. Quando termina de descascar essa outra laranja, sai para depositar em sítio devido as perfumadas sobras. Ele alcança o meu braço com a mão e, de novo, com um sorriso me diz.
"- Sabes...quando amamos alguém, quando o que sentimos é intemporal, e sabemos que não se esgota senão na eternidade... existem momentos, desse contacto físico entre dois corpos, em que nos aproximamos tanto, que por um instante, por um instante...somos só um e não dois...E, o que sentimos é cristalizado num instante que perdura em nós porque saboreámos um trago de intemporalidade... E, aí, fizémos amor sim!"
Ela regressa. Ele silencia-se.
Eu sorrio, sei que ele tem razão.

Tuesday, May 05, 2009


Não dormi. A noite foi inundada por pesadelos e suores frios. Minutos incontáveis que se somavam numa sequência infinita. Nem o descanso, pela exaustão, a manhã me trouxe. À hora devida, organizei o trabalho do dia. As reuniões que se impunham preparar, as aprovações pendentes, a distribuição de tarefas... Dez mil pequenas coisas que me ocuparam o tempo e a mente. Quando saí, já tarde, a criança nascera, logo ali, a um passo de casa. Tão perto e tão longe.
Ele telefonou-me. Enlouquecia senão falasse. Encontrei-o abatido, trémulo, exausto.... O dia fora rico em visitas preocupadas com a mãe, com a criança, pouco com ele. Falou do inferno da véspera e da noite, falou do medo, da angústia que o abarcara. Esse medo primitivo e quase irracional que nos faz recear pelos que amamos. Depois, à cautela, levou-me ao berçário e talvez porque a ninguém lhe fora ainda permitido pegar, depositaram-no nos meus braços. Os esforços infrutíferos para que nascesse naturalmente estavam espelhados nele e enormes zonas verde-arroxeadas cobriam-no. Estendi-o ao pai que o recusou tremulamente. “Não! Não consigo!” Voltou-me as costas e encaminhou-se para o quarto. Ela não recuperara ainda. Faltava-lhe a força e o alento, mas prontamente perguntou pela cria. Coloquei-o nos seus braços e aninhou-o em si. Quando a fraqueza regressou, pediu-me que o segurasse. Assim o fiz para de novo a ver sucumbir.
Era tempo, decidi. Encontrei o seu olhar e estendi-lhe o filho. Por um instante, a tensão foi palpável, depois desvaneceu-se e já tranquilo, ele acedeu e pegou-lhe. 

Monday, May 04, 2009

After Midnight
Coleman Hawkins
(Coleman Hawkins, ts; Thad Jones, t; George Duvivier, b, Eddie Costa, p&v, Osie Johnson, d)

[http://www.youtube.com/watch?v=7Cduxc3_1ZI]


A minha esperança mora
No vento e nas sereias -
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.

By Sophia de Mello Breyner Andresen

Sunday, May 03, 2009


Wildwood Flower
Bill Frisell & Joey Baron

O passado sepulta o passado e deve terminar em silêncio, mas pode ser um silêncio consciente, que repousa de olhos abertos. Talvez seja isto a remissão final de que James falava.
by Iris Murdoch

Friday, May 01, 2009


Poinciana
Ahmad Jamal Trio
[Ahmad Jamal, Idris Muhammad, James Cammack]

[
http://www.youtube.com/watch?v=MMprn3uDAVI]

(P.S.- Saberão por acaso dizer-me onde posso adquirir uma agulha 295T da Pioneer?)

Foi o primeiro café da manhã. Uma água amarelada, fraca, sem sabor ou aroma. Repetido depois perante a minha recusa de degustar o que me era dado a provar. De tanto amar esta bebida, receio que o meu sangue possa ganhar o paladar e aroma de grãos torrados. A crise, sempre a malfadada crise, até o gosto desta bebida aromática parece ter torvado. Àquela primeira hora um centro deserto de seguranças suspensos no último sono da manhã. Arquivo Universal - O documento e a utopia fotográfica. A fotografia enquanto documento. A fotografia e a retórica da vítima. A fotografia enquanto prova de uma certa realidade. Termina a 3 de Maio. Uma exposição fabulosa para quem ame a fotografia.

Monday, April 27, 2009


In The Middle Of A Kiss
Zoot Sims
(Zoot Sims, Hank Jones, Milt Hinton, Grady Tate)

[http://www.youtube.com/watch?v=lLFB5W4DIyg]

As crianças da casa contemplam a enorme porta de madeira que insiste em manter-se fechada. Uma curiosidade atroz parece atraí-las, apesar de continuamente escorraçadas pela dona da casa. A divisão permanece um mistério que só vêem desfeito em ocasiões talvez especiais. A família reune-se, a porta é aberta e prontamente se vislumbra a enorme mesa. Logo, logo, as antigas loiças e os talheres de prata repousam de novo à vista de todos mas, quando o dia findar, a penumbra voltará a emergir pela imensa sala e a porta mais uma vez se encontrará cerrada.
E, na minha cabeça, palavras e sons que tomam a forma de uma cantilena...

Empty spaces - what are we living for?
Abandoned places - I guess we know the score..
On and on!
Does anybody know what we are looking for?

Friday, April 24, 2009

"Carpe diem quam minimum credula postero."
By Horacio

I Should Care
Hank Mobley

[http://www.youtube.com/watch?v=jwKFKAg6pTA]

Wednesday, April 22, 2009


[Momentinho Reles]
Trabalhar e estudar foi, talvez, uma das mais difíceis aventuras da minha vida. Terminei-a com sucesso, mais não seja pela obstinação que me caracteriza. [Embora esteja em crer que, alguns chamá-la-iam de teimosia e outros de tenacidade. Dependerá talvez, do dia da semana ou do humor do momento.] Quem me conhece de perto sabe que o que faço profissionalmente tem um peso significativo na minha vida. [Com que eu pactuo em absoluto. Afinal, gosto do que faço!] Essa acumulação de esforço traduziu-se numa sobrecarga importante, que senti na pele, mas igualmente numa experiência educativa. A "auto-formação" nem sempre é bem recebida pelos quadros das empresas. Os professores, por vezes, entendem estes alunos como um esbanjamento supérfluo dos seus esforço e atenção. O gestor mal preparado, ou deficientemente formado, enfrenta o medo de que um empregado, com um maior nível de educação, exija que ele próprio cresça profissionalmente [O que exige esforço, tempo e dedicação. Um aborrecimento, afinal.] e obriga-o a enfrentar outro tipo de aspirações, por parte desse empregado. O professor mal preparado, ocasionalmente um investigador de excelência, é incapaz de transmitir o seu saber. O seu desfasamento de uma realidade empresarial, dinâmica e que pulsa, escapa-se-lhe instalado que está no seu útero académico. [Reconheço, no entanto, que encontrei criaturas de uma agudeza fabulosa e com as quais tive as mais acutilantes dissertações. Em suma, diverti-me bastante!] A educação é, no meu entender, uma pedra basilar de um país. Certo, não temos todos que ser doutores ou engenheiros [Esta é uma velha falácia para tontos e loucos. Só acredita quem quer.], mas um técnico especializado capaz de compreender melhor a sua acção produtiva tem uma maior capacidade de gerar valor para si e para os outros bem como aumentar o conhecimento da tribo. [Também de questionar mais, de colocar mais em causa, o que é uma chatice, reconheço! ;)] Agora, que se defenda o aumento da escolariedade obrigatória e, em simultâneo, que todos os alunos devam transitar de ano...Não tenho vontade de rir, não! Tenho é de chorar...e muita!

Monday, April 20, 2009


Poema
As coisas mais simples, ouço-as no intervalo
do vento, quando um simples bater de chuva nos
vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo
se sobrepõe ao das palavras. Por vezes, é uma
voz cansada que repete incansavelmente
o que a noite ensina a quem a vive; de outras
vezes, corre, apressada, atropelando sentidos
e frases como se quisesse chegar ao fim, mais
depressa do que a madrugada. São coisas simples
como a areia que se apanha, e escorre por
entre os dedos enquanto os olhos procuram
uma linha nítida no horizonte; ou são as
coisas que subitamente lembramos, quando
o sol emerge num breve rasgão de nuvem.
Estas são as coisas que passam, quando o vento
fica; e são elas que tentamos lembrar,
como se as tivéssemos ouvido, e o ruído da chuva nos
vidros não tivesse apagado a sua voz.
by Nuno Júdice

E é a elas que regresso quando o cansaço dos dias se acumula e me escorre pelo corpo...às coisas mais simples.

Sunday, April 19, 2009


Work Song
Cannonball Adderley Sextet
[http://www.youtube.com/watch?v=VBxAC4ywaJ4]
A minha bicicleta olha-me de soslaio. É uma das excentricidades do meu coração. Não chega a pesar dez quilos e, toda dobrada, consigo arrumá-la facilmente por aqui. O sol regressou. Ela sabe que me inquieto. Irremediável. Impõe-se preparar o trabalho dos próximos dias. Ontem, a melancolia entranhou-se em mim e não avancei o devido. Hoje, tenho que recuperar os minutos perdidos. 
Em cima da mesa dois Long Play - Somehin' Else( album do meu coração) e 'Round About Midnight -, três Compact Disks - Bitches Brew, Leosia e Ballads( este último, por sugestão de fj ), um expresso longo - perfumado e quente - e uma vela sangue acesa... Veremos o que conseguem fazer pela minha concentração...

Friday, April 17, 2009


Art by Mordillo
Vamos ver se não chove! 
Tenham um Bom Fim de Semana


Lucky
Paul Bley

[http://www.youtube.com/watch?v=dM7MwP5RpSQ]

(19 de Maio, Culturgest)
É uma pessoa séria. Não cessa de o repetir. Uma, e outra e outra vez. A gravidade dos gestos, da face, a entoação da voz. Os mecanismos montados são exactos... precisos. Visam cumprir a missão de constituir prova indubitável dessa seriedade alardeada. Aborreço-me. Acumulo falhas, é certo, mas a par com a soberba esta qualidade publicitada provoca em mim uma reação visceral. Levanto-me. Questiona-me. A sua indignação enche o ar. As palavras são vigorosas. Ditas para serem ouvidas. Não levanto a voz. Agradeço-lhe a disponibilidade e peço-lhe que aprecie o significado de duas palavras, unidas por uma preposição, integridade de carácter...

Wednesday, April 15, 2009


Waltz for Debby
Bill Evans
[
http://www.youtube.com/watch?v=dH3GSrCmzC8]

Vivemos, no plano cultural, as mesmas dificuldades que, ainda no século passado, alguns caciques impunham a determinados povos para impedirem que se ensinasse a ler e a escrever, com medo de que as pessoas acordassem demasiado. Ficamos horrorizados quando ainda ouvimos dizer entre as classes que decidem, aliás com a demagogia de sempre, que se deve servir o povo com coisas que lhe deêm prazer e não com ideias excessivamente intelectuais.
...
Não facilitando verdadeiramente a difusão e o ensino da autêntica cultura formativa, e continuando com a ideia hipócrita de que convém dar o que o vulgo pede, nunca se formará, naturalmente, a sensibilidade necessária. No entanto, quando um responsável, por exemplo, dos programas de televisão declara, como já lemos, que é o povo que pede tal ou tal coisa, em nome de que povo fala ele? Quem lhe deu esse poder para o garantir? Também a obstinação em nos levar a crer que com esta mentalidade se faz um trabalho cultural é como garantirem-nos que se pode aprender a nadar sem ver sequer a água.

in A Prática da Arte
by Antoni Tàpies

Tuesday, April 14, 2009

Jamais recebi a graça de amar esta cidade. As suas vozes enaltecem-na, os seus aparos elogiam-na...eu resisto. Não me revejo na sua luz nem no seu corpo farto de donzela feita matrona. A mulher entristeceu, desistiu de ser bela, para si e para os outros, cedeu ao infortúnio, à má sorte, entregou-se às mãos dos seus algozes. E eu, que a não amo, choro mais sentidamente o seu destino que outros que apregoam amá-la bem mais perdidamente.

Machine Gun (Second Take)
Peter Brötzmann
[http://www.youtube.com/watch?v=HWiO5SFoh8g]

Não. Não enlouqueci.
Mas é o que oiço em dias de grande arrelia...

Monday, April 13, 2009

Maiden Voyage
[Freddie Hubbard, trumpet; George Coleman, tenor sax; Herbie Hancock, piano; Ron Carter, bass; Anthony Williams, drums]
[http://www.youtube.com/watch?v=qorvyRszZKs]
[e continua aqui http://www.youtube.com/watch?v=qtLe2sne0fI]

Do alto dos seus oitenta anos, e direito como um plátano no verão da vida, o senhor meu avô apontava-me o dedo e ameaçava-me de fumigação certa. "Não é que a catraia nasceu com bicho carpinteiro!?!!?" Um facto da minha vida, sim. A ociosidade prolongada aborrece-me. E, se não tenho que fazer,...sempre invento... Muitas das horas dos meus dias são consumidas numa actividade profissional intensa e, por vezes, bastante esgotante. O facto é que apesar de todos os contra-tempos e obstáculos com que me deparo a cada dia, gosto realmente do que faço. E, no dia em que deixar de gostar, hei-de partir em busca de algo que me complete um pouco mais... Não me vejo a desistir, a baixar os braços, a ceder...
E, todavia, embora uma parte importante de mim, o que faço profissionalmente não me define, não me limita e não me basta. Afinal, o dia tem 24 horas e eu só preciso de repousar 7...

Saturday, April 11, 2009

Serenade for the Renegade 
Esbjörn Svensson Trio
[http://www.youtube.com/watch?v=vz0Wlnwzxyk]

Pressinto que continuamos fora do essencial e que as razões das circunstâncias - que, muitas vezes, são poderosas e reais - só servem para nos afastar dos enigmas que estão à frente das coisas e que nos caberia decifrar. Porque, algumas vezes, até parece que a simplicidade emana do andamento da vida e que bastaria um pequeno gesto de espírito para passarmos para o lado de lá de tantas incomodidades que nos fazem viver como se tivéssemos calçado dois números abaixo da forma da alma.
in o Riso de Deus
by António Alçada Baptista

Wednesday, April 08, 2009


I Say A Little Prayer
Aretha Franklin

For all of you
[http://www.youtube.com/watch?v=STKkWj2WpWM]

A maior parte de vós não conheço. Vislumbro-vos pelas palavras, pelas imagens e pelos sons que escolhem. Por vezes, pergunto-me se o que contemplo, será o rosto ou a máscara? Não que seja realmente importante mas, sou um ser analítico, é-me difícil fugir à minha natureza. Alguns estão por cá faz tempo, outros chegaram há pouco. Podia fazer uma lista de blogues preferidos, dos de paixão, dos bem dispostos, dos incisivos, dos mal-dispostos e de muitos outros. Não o faço. Pela mesma razão que não escolho uma cor preferida. Escolhia o amarelo. E depois? Depois fazia-me falta o azul, o vermelho, o verde, o lilás, o branco, o preto.. A blogues de que não gosto não regresso. Ponto final. É simples. Aos outros regresso sempre que posso. Quando no meu dia consigo juntar a oportunidade e a vontade. Nem sempre, os comento, reconheço. Ultimamente tenho-o feito mais.
Um blog é um animal vivo que se alimenta de nós. Se o deixarmos consome-nos. Ocasionalmente, a essência do que somos altera-se, ou a essência das nossas interações com os outros, e deixamos de reconhecer aquele espaço como nosso.
Ao longo do último ano, tenho-vos visto desaparecer, um após o outro. Cartas tombadas num jogo viciado. Queria dizer-vos que de alguns de vós tenho saudades...muitas. Fiquem bem e, se possível,...renasçam. Gostaria de vos voltar a encontrar, nesta vida ou em outra.