December 21, 2006

A Todos Vós...
A todos vós que en passant se detêm e a todos os outros que sempre voltam, desejo um Bom Natal ou um Bom Fim de Semana e Feriado.
Volto em breve.
(Cartoon from Bill Sanders)

December 20, 2006


Cuidado
É a recordação que melhor guardo dele, o sorriso.
Quando sorria iluminava o mundo.
A velha criada chamava-lhe O Meu Menino, epíteto a que sempre respondia afectuosamente.
Lembro-me de uma noite em que fomos aos copos.
No regresso, ao calcorrearmos as ruas de pedra da cidade antiga, um velho sem abrigo que por ali andava quase tropeçou em nós.
Vendo-o com uma camisa ruça e uma camisola rasgada, despiu o sobretudo e deu-lho.
Era assim com tudo e intempérie alguma do mundo parecia afectá-lo.
Apenas a cobiça das poderosas máquinas que via nas revistas de automóveis lhe grassava o coração.
E a única vez em que assisti a uma verdadeira crise de ciúmes da namorada, não tinha a ver com mulheres mas com belas e poderosas máquinas.
Sentado ao volante do seu admirável automóvel sentia-se pronto para conquistar o mundo.
Um dia, no meu regresso à cidade, vi um cavalinho vermelho, desfeito contra um muro de pedra, e um corpo caído por terra envolvido num lençol branco sangue.
Não foram precisas palavras.
Hoje, sempre que me excedo um pouco ao volante, surge aquela imagem e oiço as tuas palavras "Vai com cuidado por favor!".
E tenho cuidado.
(Print from Joe Sorren; In Celebration of Balance & Opposable Thumbs by Joe Sorren and Matt Hall)

December 19, 2006


Bem Hajas Joseph Barbera!

Cresci entre as temíveis perseguições de Tom a Jerry.
E se era verdade que adorava o pequeno rato castanho também não é menos verdadeira a fascinação que tinha pela bola de pelo cinzenta que incansavelmente o perseguia em tropelias sem fim.
Ainda hoje um sorriso rasgado me assoma nos lábios quando os descubro, aqui e ali, em corridas intemporais.
Com a morte de Joseph Barbera fecha-se um ciclo que teve início com a fundação em 1957 do estúdio Hanna Barbera, em parceria com William Hanna(2001).
Para além de Tom e Jerry, entre muitos outros, a dupla criaria ainda Os Flinstones, Os Jetsons e o impagável Scooby Doo.
Por todas as horas de riso solto e lágrimas de felicidade, bem hajas Joseph Barbera!
( Image from the Clampett Studio Collections; Tom and Jerry)

December 18, 2006

Little People

Pequenos embriões de gente torcida e retorcida por cantos e recantos.
Arrastados aqui e acolá entre suspiros e desencantos...
Trocados e retrocados por portentos, vistas mar e vestidinhos armani.
Sorrisinho armado para a velha tia.
Não conhecem a fome da rua.
Mas a fome que os mata...

(Painting from Joe Soren; Feather Shirt and Branches)

December 14, 2006


A Cor da Desculpa

- Ah! Você não gosta de mim porque sou negro!

Este é o tipo de respostas que me tira francamente do sério.
Lá esclareci o meu interlocutor que no contexto em causa, um contexto estritamente profissional, o enfoque estava no seu trabalho e não na sua pessoa.
Trabalho esse que eu considerava incompleto, imperfeito, atabalhoado...e francamente mal feito.
Apresentei-lhe as evidências que suportavam a minha avaliação sem que houvesse do seu lado mais do que um silêncio indisposto e ficámos assim.
Passámos a interagir cordialmente num ambiente profissional e a ignorar-mo-nos fora dele.
O que nada me incomoda.
Profissionalmente interajo frequentemente com pessoas que seria incapaz de incluir no meu espaço de intimidade.
Mas, na realidade, é-me perfeitamente indifirente que sejam azuis, verdes, amarelas, às riscas, aos quadrados.
Em nada afecta a avaliação que faço do seu trabalho.
O que me tira do sério é que se usem este tipo de respostas como forma de inibição ou coacção de mecanismos de avaliação ou como desculpa para erros e pecadilhos cometidos!


(Fimbles is a British television programme, produced for BBC, based on original designs by Sarah Hayes.)

December 13, 2006


Apreciações...

Uma das qualidades que mais aprecio é a pontualidade.
Todavia, pensando seriamente sobre o assunto, acredito que talvez habite o País errado quando se trata da apreciação de tais qualidades...
Reuniões de trabalho? É impensável esperar que cheguem atempadamente...
A não ser que...os participantes não sejam nativos.
E, mesmo assim, tenho sérias reservas!
Se por aqui residirem faz tempo...certamente já incorporaram os mesmos trejeitos e costumeiras maneiras...
Esta pose extraordinária estende-se aos mais inusitados sectores da actividade humana e espaços de intimidade.
E se, de facto, me habituei a coabitar com esta forma de estar nas suas mais diversas expressões, o que me tira realmente do sério é a sua propagação a áreas onde considero que fortemente são tradução de franca descortesia.
Entrar numa sala de espectáculos, já depois do início do espectáculo, incomodando todos aqueles que se encontram já no seu interior, fruindo do mesmo, e afectando o trabalho de terceiros é um destes casos.
No entanto, não deixo também de observar que o enfoque das organizações na receita e na obtenção de margens, cada vez maiores, leva-as a não cumprir requisitos minimos de qualidade nos serviços que oferecem...
Mas assim será o Pequeno Mundo em que vivemos...

December 11, 2006

Todo O Tempo Do Mundo

Podes vir a qualquer hora
Cá estarei para te ouvir
O que tenho para fazer
Posso fazer a seguir


Podes vir quando quiseres
Já fui onde tinha de ir
Resolvi os compromissos
agora só te quero ouvir


Podes-me interromper
e contar a tua história
Do dia que aconteceu
A tua pequena glória
O teu pequeno troféu


Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo


Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
o mundo à volta ruía


E tu vinhas e falavas
falavas e eu não ouvia
E depois já nem falavas
E eu já mal te conhecia


Agora em tudo o que faço
O tempo é tão relativo
Podes vir por um abraço
Podes vir sem ter motivo
Tens em mim o teu espaço


Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo
(Composição de Carlos Tê / Rui Veloso)


Tens de parar! Um dia tens de parar!
Assim o ouvia incessantemente repetir.
Parei.
Não hoje, não ontem mas talvez no dia anterior...
Hoje?!
Hoje, tento caminhar...
Tento mastigar e saborear...
Tento ter tempo para os que me são queridos...
Tento ler, ainda que, algumas breves páginas a cada dia...
Tento ouvir os ritmos que me embalam...
Tento poder dizer que vivi e não apenas que passei por aqui.

(Painting from Jacek Yerka)

December 07, 2006

O Tempo, esse grande escultor...

Por vezes, quando me olho no espelho, reparo nos pequenos sulcos que aqui e ali assomam na pele e não deixo de achar curioso o que o tempo, esse grande escultor, é capaz de fazer desta massa humana que o meu espírito habita.
Bem no amâgo do meu ser, acredito continuar a ser eu, a criança que foi, o adulto que hoje é e o velho que amanhã será.
Que apesar de tudo, a minha essência ainda habita esta massa de barro moldado.
Sei que envelheço todos os dias um bocadinho mas, e apesar disso, questiono-me muitas vezes como será fazer parte dessa terceira idade.
Uma terceira idade de risos soltos, perdões fáceis e doce cortesia.
Mas também uma terceira idade maltratada, rejeitada, vilipendiada que mais não é que um encargo que se arrasta por aqui e por ali como se de um trapo se tratasse.
Dizem-me que são o que refinaram toda a vida.
Dizem-me que a idade não é doença.
Dizem-me que são de outro tempo que nada pode acrescentar ao que somos e ao que seremos.
Eu apenas estranho que os deixem morrer para só depois quebrarem este ciclo de infâmia e remissão...
(Painting from Jacek Yerka)

December 06, 2006

Cubo mágico

Agora que a época natalícia se impõe, a oferta de novos e melhores canais de televisão a um muito melhor preço é avassaladora, embora me pareça que nalguns casos a publicidade que lhes está associada resvale para o ridículo e o insensato.
Cada vez mais as famílias vivem em redor, senão em função, desse cubo mágico de atracção quase irresistível.
A hora de jantar deixou maioritariamente de ser um espaço de partilha e comunicação para ser cada vez mais um espaço de silêncio e de (re)programação silenciosa de grandes e pequenos adultos.
Por vezes questiono-me quando acordarão esses mísseis teleguiados e quais serão os seus alvos...

December 05, 2006



As Sandálias do Pescador

A minha educação teve lugar num mundo profundamente católico e de fervor religioso.
Velhas senhoras habitavam os espaços de prece em que o cheiro a naftalina se misturava com o odor a humidade da talha dourada e a cera das velas em queima.
No inverno, o frio da pedra entranhava-se no corpo durante a homilia dificultando a concentração dos ouvintes que se entregavam a uma inquietação sem fim.
Um após o outro, fui cumprindo os cerimoniais que se impunham.
Alguma desconfiança grassava em mim mas com a minha costumeira mania de evitar conflitos, assim satisfazia outros quereres.
Certo dia em que me apressavam para a presença de um padre, por ocasião de um dos sacramentos, o meu cepticismo falou mais alto.
Após uma infindável lista de pecadilhos a que fui respondendo não, não e não, decidi esclarecer a criatura que perante mim se encontrava que até nem tinha muitas dúvidas quanto ao bom velho Deus mas que de facto tinha muitas e sérias dúvidas quanto à corja que habitava o templo e que me parecia que talvez fosse tempo de afastar novamente os vendilhões do templo.
Bom! A resposta não se fez esperar...
Vi-o ficar de todas as cores, as têmporas a latejar e gritava-me incessantemente que o que acabara de dizer era um avultadíssimo pecado que pagaria por certo com uma estada no inferno ou purgatório.
Expulsou-me com a incumbência de rezar dez mil preces a todos os santos e de afastar terminantemente do pensamento tais ignomínias.
Sentei-me por alguns minutos ainda atordoada pela investida e saí pouco depois.
A minha interacção com a Igreja Católica terminou aí.
Hoje, acho que me deu um conjunto de valores éticos e morais mas também continuo a achar que o templo está cheio de vendilhões e que as sandálias de Pedro nunca deveriam ter sido Prada.


(Photograph by James L. Stanfield; Vatican City)

December 04, 2006

Fidelitate

A fidelidade é talvez uma das qualidades mais enaltecidas quando está em jogo o compromisso amoroso dos amantes.
Fidelidade enquanto qualidade aplicável no contexto de um relacionamento amoroso e afectivo que se entende monogâmico.
Fui fiel e fui infiel.
Conheço a dor da infidelidade quanto a um parceiro que se pretendia leal.
Reconheço também que, salvo a compulsão natural de algumas criaturas para a infidelidade, a infidelidade não pode ser vista apenas como o resultado das acções de um indivíduo. Deve ser sim enquadrada como produto da natureza do próprio relacionamento e avaliada enquanto tal.
Talvez a maturidade permita que, quando no limite, um dos amantes reconhecendo as fragilidades as possa avaliar com o outro, aquele com quem partilha esse espaço privado de intimidade.
Algumas coisas aprendi, todavia...
Aprendi que este entendimento é a dois e a dois deve ser contruído e cuidado e que quando termina não existem heróis e vilões, inocentes e culpados.
Aprendi que a infidelidade pode magoar profundamente o nosso parceiro mas que também nos pode magoar a nós muito mais. A nossa imagem no espelho não é certamente aquela que gostaríamos de ver...
Aprendi também que a fidelidade é uma qualidade que tem de surgir por si própria no contexto do compromisso amoroso, não pode ser imposta, e que não existem alianças no mundo que impeçam alguém de ser infiel.

(Photograph by Steve Kaufman/CORBIS; Whistling Swan)

November 30, 2006


Maravilhas...

7 Maravilhas a que o Mundo convencionou chamar As 7 Maravilhas do Mundo Antigo.
O Templo de Artemis, Deusa da Caça e Protectora da Natureza, do qual restam pedras depositadas entre a erva e o pó.
Os Jardins Suspensos da Babilónia projecção terrena do paraíso, de localização incerta e cuja arte se perdeu algures no tempo.
O Colosso de Rhodes, magnífica estátua de bronze com 32 metros de altura, eregida em honra de Hélios, e destruída durante um tremor de terra.
O Mausuléu de Halicarnassus, grande tumba em mármore erigida pela Rainha Artemesia II da Pérsia em memória de seu marido Mausulus. Foi destruída enquanto símbolo de arte pagã, sobreviveu a palavra a que deu origem: Mausoléu.
O Faról de Alexandria era o guia para o porto de Alexandria no Antigo Egipto. Tempos houve em que ostentou uma estátua de Poseidon, o senhor dos oceanos. Foi destruída por sucessivos tremores de terra.
As Pirâmides de Giza são a única sobrevivente das 7 Maravilhas. Construídas entre 2600 e 2500 AC, são três pirãmides com cerca de 146 metros de altura. São por ordem inversa de grandeza e dimensão a Pirâmide de Cheops, a Pirâmide de Chephren e a Pirâmide de Mykerinus. Representam a ligação entre o céu e a terra.
A Estátua de Zeus, estátua de ouro erigida em honra de Zeus, era considerada a Maravilha das Maravilhas. Desconhece-se de que forma terá sido destruída.
Maravilhas perdidas para nós talvez para sempre.
Símbolos de um tempo que desapareceu.
Aparentemente, todos nós temos agora oportunidade de escolher Novas Maravilhas (
www.new7wonders.com).
Oportunidade de mudar o passado para todos aqueles que virão depois de nós.
Um dia as 7 Maravilhas do Mundo Antigo não serão mais do que uma simples poeira na odisseia do tempo.
E o Homem Novo não terá feito mais que o seu Avô.
Herdar a sua pouca memória e com ela repetir a História.

(Photograph by James L. Stanfield; Giza, Egypt)

Campo de Batalha
O som do martelo nas bigornas é quase ensurdecedor e a azáfama nos campos prolonga-se noite fora.
Noite iluminada pelos fogos eternos das fornalhas onde o metal é batido e moldado num esforço sem fim.
Em cantos perdidos, guerreiros valorosos afiam os gumes e preparam montadas.
Cada um destes seres da guerra está preparado para valorosamente defender a sua causa e o seu rei.
Mas quando estes dois exércitos magníficos se encontrarem frente a frente...que rei ou roque ali será defendido?
Vejo-os de batinas pretas pregando a vida e abençoando a morte.
Vejo-os escudarem-se em princípios, leis, directivas, recomendações para não educarem e não decidirem.
Vejo-os fugir a algo que era deles também.
Vejo-as dizer que há sempre lugar para mais um.
Vejo-as escolherem o caminho mais fácil porque não querem saber ou não sabem de facto.
Mas também as vejo carregando filhos sem fim, perdidos por aí, e ansiando ter apenas um pouquinho mais para cada um...
Respondem-me que escolho a opção mais simples.
Respondo-vos que não.
Respondo-vos que escolho o direito à escolha.
Respondo-vos que vivo, aqui e agora, num país de gente de carne e osso que precisa de pragmatismo e não de quimeras.
Respondo-vos que assisti àquelas dores e sei o que doem.
Respondo-vos que não é solução para a falta de educação, ética e civismo mas se não é, é preciso fazer mais e melhor e recusar a hipocrisia.
Respondo-vos que eu...eu escolhi.


(Photograph by James L. Stanfield; Near Belcegiz, Turkey)

November 24, 2006



Corre Comigo...

Aquela foi a minha matilha.
Nasci ali, naquele espaço e tempo, e partilhei-o com cada um daqueles lobos.
Quando chegou a altura de partir, parti.
Ganhei o meu tempo e o meu espaço e corri livre na realidade que alcancei.
Outros lobos apareceram.
Fiquei com eles algum tempo.
Mas descobri que as suas caçadas não eram as minhas, que as dentadas que me davam não faziam parte da vida e que os trilhos que seguiam eram habitados pela escuridão e pelo fanatismo.
Abandonei os seus caminhos e voltei a correr com o Vento Norte.
Este é o meu tempo e o meu espaço, meu e só meu.
Achei...
Mas quando te vejo a correr a meu lado...
Meu coração hesita entre os fragmentos escuros do passado e a estrela polar, entre o egoísmo e a partilha...
Sei que sem ti não vivo mas contigo não sei viver...ainda...

(Photograph by Joel Sartore; Ely, Minnesota)

November 17, 2006


E assim desconfio...

Faz algum tempo já, levantava-me cedo e percorria as ruas de Lisboa naquilo que carinhosamente chamo a ronda dos alfarrábios e livros usados.
Outros dias, fazia a ronda das pequenas livrarias onde sempre me arranjavam preciosidades já esquecidas ou maltratadas.
Contudo, e reconheço isto com alguma surpresa, desde que surgiram certos ...como direi...espaços abertos dedicados à comercialização de autoscritos...deixei de frequentar aqueles pequenos espaços de prazer...
Confesso que...me questiono seriamente se esta concentração não estará a conduzir a uma séria uniformização da oferta e da procura e à consequente normalização de todos os intervenientes nesta cadeia de valor...autores, livreiros, clubes de leitura, livrarias...e por fim leitores...
E assim desconfio, admirável mundo!


(Photograph from Pedro Vasconcelos, Porto, Livraria Lello)

November 14, 2006

This Is Not America

A little piece of you
The little peace in me
Will die [This is not a miracle]
For this is not America
Blossom fails to bloom
This season
Promise not to stare
Too long [This is not America]
For this is not the miracle
There was a time
A storm that blew so pure
For this could be the biggest sky
And I could have
The faintest idea
[For this is not America, sha la la la la, sha la la la la, sha la la la
This is not america, no, this is not, sha la la la la]
Snowman melting
From the inside
Falcon spirals
To the ground [This could be the biggest sky]
So bloody red
Tomorrow's clouds
A little piece of you
The little piece in me
Will die [This could be a miracle]
For this is not America
There was a time
A wind that blew so young
For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea
[For this is not America, sha la la la la, sha la la la la, sha la la la
This is not america, no, this is not, sha la la la
This is not america, no, this is not
This is not america, no, this is not, sha la la la]
in This Is Not America, David Bowie

Apesar da animosidade de mais de metade do mundo contra o texano mais conhecido do planeta, não deixa de ser curioso que os maiores esgares de insatisfação vêm talvez do seu próprio pátio.
Ser-se americano, hoje em dia, é cada vez mais sinónimo de desconfiança, de intolerância, de medo.
No país da livre iniciativa, do empreendedorismo, da liberdade...ousar, cada vez mais, acarreta o preço da suspeição e o sacríficio das liberdades individuais no altar da segurança nacional.
E talvez agora e mais do que nunca, a bela francesa que pousou um dia desnudada por um país livre se sinta já cansada de um sonho desfeito...

(Photograph by David S. Boyer; New York Harbor)

October 31, 2006


Hoje

Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso, do teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais
Teu cheiro me dá prazer
Quando estou com você
Estou nos braços da paz

Pensamento viaja e vai buscar meu bem querer
Não posso ser feliz assim, tem dó de mim
O que que eu posso fazer?


in Gostoso Demais, Maria Bethânia


(Photograph from Sebastião Salgado)

Meninos Perdidos de Pan

Que estranheza me causa a costumeira habituação destas gentes em consumir horas, minutos e segundos em conversa solta sem objectivo, sem propósito, sem fim...
As palavras rotineiras despidas de sentido repetem-se indolentemente criando uma falsa sensação de intimidade.
Reveêm-se todos os dias, partilham espaços e tempos...falam dos filhos, dos companheiros, dos amantes, da puta da vida que os serve numa esquina perdida...
Mas quando os olho nos olhos, vejo a tristeza dos meninos perdidos de Pan.
Quem são eles? O que amam? O que odeiam?
O que deixam de si uma vez esvaziado o ruído das palavras ocas?


(Photograph vy William Albert Allard; Boston, Massachusetts)

October 17, 2006



Father Figure

"A violência não é força, mas fraqueza, nem nunca poderá ser criadora de coisa alguma, apenas destruidora." (CB)

A tensão no ambiente tolhia-nos os movimentos tornando-os mecânicos e estudados.
Vi-o caído no chão.
Os óculos despedaçados pairavam na carpete carmim e um pequeno fio de sangue vivo sulcava-lhe a face terminando na t-shirt branca.
Uma mancha imensa emergia agora no canto dos lábios sobrepondo-se à sua palidez desarmante.
A mulher, ajoelhada a um canto, chorava copiosamente e no seu rosto e braços eram visíveis sinais de uma violência inusitada.
Quando levantei os olhos vi-o.
Parecia um animal enjaulado.
Ainda tinha erguido o punho com que atingira o filho.
Olhou-me com surpresa e baixou os braços.
Eu conhecia a história do menino que quis ter tudo e se esquecera de quem era.
Anuiu e saiu.
Não regressou nunca mais aquela casa.
Às vezes vejo-o.
O gigante adormecido transformou-se num velho atento e afável.
Reconciliou-se com ele próprio e com o mundo.
Num dia de chuva em que levava o neto às costas, vi um sorriso triste assomar no rosto de um homem que os observava.
Apoiou-se em mim e murmurou apenas..."Podia ter sido diferente."


(Photograph by Phil Schermeister, Pacific Beach Park, San Diego)

October 12, 2006



Passado

"Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana."(MY)


Por vezes o passado que temos escorre-nos entre os dedos como a areia da praia e o que permanece em nós são fiapos disconexos do que fomos.
Sons, cores e odores familiares populam-nos os sonhos esfumando-se em cada despertar e o que retemos nada mais é do que uma réstea de familiaridade.
Apenas as impressões mais fortes nos enebriam, tudo o resto se perdeu, e é imensa a náusea que nos assoma quando tentamos retomar o que era nosso.
Apesar de tudo...impõe-se não desistir e tentar reencontrar a parte do caminho que foi realmente nossa.
Novos caminhos? Sim... também. Tenho a certeza!
Afinal que medo pode o homem sem passado ter?...se passado e futuro são unos na incerteza...
E depois...talvez seja esta a oportunidade do agrilhoado.


(Photograph by Tomasz Tomaszewski; Blackpool, Lancashire, England)

October 09, 2006




Electrodomésticos

Tenho esta estranha relação com a minha viatura.
Vejo-a apenas como mais um destes peculiares aparelhómetros que populam o meu dia a dia para enorme desgosto de algumas ternas criaturas que partilham a minha vida.
Sempre que ironicamente lhes respondo que deixei o electrodoméstico na rua...são visíveis os espasmos musculares e a tentação para me deitarem as mãos ao pescoço.
Apesar de, curiosamente, ter o cuidado de assegurar que o electrodoméstico tenha o tempo esperado de vida e de m
onitorizar com alguma atenção todos aqueles níveis que salvaguardam a sua integridade ...
E...de uma forma geral, as pessoas até sobrevivem quando viajam comigo, tirando um ou outro caso particular que consideram que as minhas inquietações são pertinentes.
Também não tenho por hábito cumprimentar paredes, outras viaturas ou até um ou outro peãozito incauto que me apareçam pela frente.
Mas confesso que não percebo algumas destas estranhas paixões!
Não entendo que não possam sair com o objecto dos afectos porque chove...a rodos!
...E a família vai a pé e à chuva!

Não entendo que o cão possa ficar na rua mas a viatura...impensável!
Não entendo que os filhos não possam levar as Bratz mas os pais...sim!
Não entendo que não queiram fazer quilómetros porque desvalorizam o património!

Não entendo!
Garanto-vos que não entendo.

October 01, 2006

Imagens


Photograph from Finbarr O'Reilly, Canada, Reuters
World Press Photo of the Year 2005


The fingers of malnourished one-year-old Alassa Galisou are pressed against the lips of his mother Fatou Ousseini at an emergency feeding center in the town of Tahoua in northwestern Niger, on August 1.


Não sei que leitores frequentam este espaço.
De alguns tenho apenas um vislumbre, de outros...bem menos do que isso.
Mas arrisco uma sugestão.
Até 22 de Outubro no Centro Cultural de Belém, Lisboa, está patente a World Press Photo 2006.
A exposição deste ano parece-me mais coesa do que as de alguns anos anteriores.
E porque uma imagem (pode) vale(r) mil palavras, deixo-vos algumas das imagens da exposição.


Photograph from Donald Miralle, Jr., Getty Images

World-record holder Aaron Peirsol streamlines off the wall after the 200-meter backstroke preliminary heats during the Santa Clara Grand Prix in California in June.

Photograph from Jacob Aue Sobol

Twelve-year-old Elisabeth hugs her youngest brother Roberto.

Photograph from Edmond Terakopian

A commuter still clutching his morning newspaper, leaves Edgware Road Underground Station in London after a suicide bombing on July 7.

Photograph from David Guttenfelder, Associated Press

Sabir Hussein Shah holds his nine-year-old son Zeeshan, who is being treated after having his arm amputated in a field hospital on October 30.

Photograph from David Hogsholt

Mia (26) stands behind Copenhagen's central station, the area that houses the city's red light district. She is a drug addict and a sex worker.

[Horário: de terça a domingo das 10:00 às 19:00;
Preço do Bilhete: 3€; estudantes, professores e crianças têm direito a um bilhete de valor mais reduzido;
Alerta: A crueza de algumas imagens podem chocar
Comentário: A World Press Photo é uma organização independente, não lucrativa, fundada nos Países Baixos em 1955, que tem por objectivo promover internacionalmente trabalhos de fotografia profissional no contexto do fotojornalismo.]


September 29, 2006



Regresso

"Education is what remains after one has forgotten everything he learned in school."
By Albert Einstein

Gosto de estudar, tenho este vício.
A curiosidade que me é intrínseca leva-me a querer perceber e saber para além dos rótulos que se atribuem às coisas.
É azul, porque é.
Não chega. Para mim não chega.
Lembro-me de exasperar adultos quando os questionava insistentemente para que me explicassem os porquês do universo.
Agora, compreendo-os.
Ao fim de um dia de trabalho ser-se sujeito à santa inquisição por fedelhos e sobreviver, é um feito digno de nota.
No entanto, ainda hoje me tiram do sério quando me respondem porque sim, porque não ou se escondem atrás do nome das coisas.
Da escola, enquanto instituição, guardo memórias contraditórias.
Professores atirados para matérias que não gostavam de leccionar ou para uma profissão de que não gostavam.
Professores incapazes de gerir uma trupe indisciplinada e barulhenta.
Professores que nos obrigavam a memorizar páginas e páginas de saber, como se o saber pudesse ser decorado e não interiorizado.
Professores que pouco respeitavam os seus alunos enquanto seres humanos com vidas próprias.
E depois, existiram todos os outros.
Os que não obrigam mas propõem, os que respeitam e são respeitados, os que se fazem compreender e compreendem.
Aqueles que fazem da escola uma doce memória e um apetecível presente.
Aqueles que nos ensinam que o saber não se compra mas se constrói e que a função da escola não é atulhar-nos de palavras mas dotar-nos de ferramentas para a vida.
Por causa deles e sempre que posso regresso à escola para aprender.

(Photograph by Maria Stenzel, Siberia, Russia)

September 27, 2006


Infância

A minha infância não permaneceu.
Hoje não tenho infância.

Não tenho infância.
Não posso recuperar-me dentro dela.
Y.Centeno

Passavam por ele como se fosse transparente, ignorando-o uma e outra e outra vez.
Puxou-me pela manga.
Era pequeno para a idade, teria talvez uns dez anos mas parecia menos, muito menos...
- Tenho fome!
- Não te dou dinheiro!
- Só tenho fome.
Eram quatro da tarde, mas chovera e a cidade estava um caos.
Descalço e sujo, ali andava de um lado para o outro a pedir uns cêntimos a quem passava.
A chuva ensopara-o e um pequeno tremor era visível.
Acompanhou-me até à pastelaria da moda, logo à esquina.
Um indivíduo enorme barrou-lhe a porta e, sem o deixar dizer ai, avisou-o de que não queria nada com os da laia dele.
Encarei-o e respondi-lhe que a criança estava comigo.
Dei-lhe a mão, levei-o até ao balcão e um círculo vazio criou-se à sua volta.
Preocupava-o que estivesse a gastar muito dinheiro e pedia-me incessantemente que o não fizesse.
Puxei-o para uma mesa e sentei-o.
Retirou cuidadosamente um guardanapo e com ele tentou tirar a porcaria de muitos dias que se acumulava nas suas pequenas mãos.
Depois calmamente comeu uma sandes de carne assada e bebericou um copo de leite quente.
- Não queres mais nada.
- Não, já comi.
- Deixo-te escolher um bolo.- Tive que insistir até ceder. Repetia-me que era muito dinheiro.
Escolheu uma fatia de pão de ló com um pouco de creme.
- Posso guardar este bocadinho para os meus irmãos?
- Podes.
Embrulhou um terço de bolo em alguns guardanapos e segurou-o.
Disse-lhe que podia ir.
Agradeceu e saiu.
Fui pagar.
- Ah, a senhora não devia fazer isso. É um desperdício. São todos uns malandros.- replicou-me a empregada.
Sugeri delicadamente à senhora que tratasse da sua vida e não da dos outros.
Ruborizou, devolveu-me o troco e pareceu amuar.
O círculo fechou-se.

Nessa noite e em muitas outras noites, penso nele e rezo para que esteja bem.

(Photograph by William Albert Allard; Delhi, India)

September 24, 2006


Amanhecer

When night is almost done,
And sunrise grows so near
That we can touch the spaces,
It 's time to smooth the hair

And get the dimples ready,
And wonder we could care
For that old faded midnight
That frightened but an hour.

In Dawn, Emily Dickinson

Hoje, amanheci na areia molhada da praia entre os gritos das gaivotas e a espuma salgada do mar.
Ganhei este hábito de acordar assim cedo, ainda noite escura e ir sentar-me à beira mar.
Conheço um a um os pequenos barcos suavemente pousados nas águas e os vultos de pequenas lanternas que deslizam na fronteira entre a terra e o mar.
Desejam-me um bom dia e sorriem.
Conheço aqueles rostos tisnados pelo mar onde assomam olhos profundos como os abismos marinhos.
Têm tido dias difíceis.
Vocês não sabem e talvez nem sonhem mas o mar é um vício que se apossa de nós. Depois de se conhecer e amar o mar…a terra parece-nos uma prisão sem fim, um desencantamento eterno.
Prendem estas gentes à terra para que vivam e não percebem.
Não percebem que os destroem a cada onda que não sentem, a cada brisa que não os percorrem…

(Photograph by Luis Marden; Madagascar)

September 23, 2006


Delighted

“Midwinter spring is its own season
Sempiternal though sodden towards sundown,
Suspended in time, between pole and tropic.
When the short day is brightest, with frost and fire,
The brief sun flames the ice, on pond and ditches,
In windless cold that is the heart's heat,
Reflecting in a watery mirror
A glare that is blindness in the early afternoon.
And glow more intense than blaze of branch, or brazier,
Stirs the dumb spirit: no wind, but pentecostal fire
In the dark time of the year.
Between melting and freezing
The soul's sap quivers. There is no earth smell
Or smell of living thing. This is the spring time
But not in time's covenant. Now the hedgerow
Is blanched for an hour with transitory blossom
Of snow, a bloom more sudden
Than that of summer, neither budding nor fading,
Not in the scheme of generation.
Where is the summer, the unimaginable
Zero summer?”
In “Little Gidding”, T.S.Eliot

Londres!
Não é a cidade que mais amo mas é uma cidade viva de contradições e de gentes que não me deixa de forma alguma indiferente.
Confesso que a amálgama a que convencionaram chamar café e que mais não é do que uma mistela indistinta de água e borras me tira do sério e me deixa à beira de um ataque de nervos. Mas este desapontamento permanente é sempre compensado pelo prazer indescritível de scones barrados com manteiga e doce ou pelo chocolate quente pejado de marshmallow de que sou adepta convicta.
Gulosa? Eu? Não sei…
Não querendo passar por anúncio publicitário…quando gosto, gosto muito. É um facto.
A confluência de gentes com diferentes vivências, posturas, credos empresta à cidade um colorido multicultural que faz parte do seu encanto e o viajante, desprevenido, em busca do inglês típico e prazenteiro a que os media nos habituaram, terá certamente uma desilusão.
Deslumbrantes são também os parques magníficos em que esquilos, castanhos e cinzentos, nos assaltam em busca de bolachas e mimos e transeuntes rosados exibem orgulhosamente a sua roupa interior aos raios de sol que ocasionalmente os visitam. Na companhia das típicas sandes de pão fatiado e recheio diverso e dos meus eternos poetas perco-me sempre nestes pedaços de verde imaculado.
Mas onde o meu coração bate forte e os meus olhos parecem mar em dia de espuma brava são nos imensos espaços em que a palavra da humanidade é uma certeza populando cada canto, cada esquina, cada prateleira de edifícios sem fim. Sou capaz de reconhecer aquele odor em qualquer sítio do mundo!
Livros, livros e livros!
Livros por todo o lado, acessíveis a todas as bolsas, a todos os credos, a todas as opiniões, a todas as multidões…
E sim! Esta é uma das razões porque amo esta cidade.

(Photograph by Neil Emmerson/Robert Harding World Imagery/Getty Images)

September 22, 2006

A Hora da Loba

Se todos os desejos fossem medos
E todos os teus gritos vagabundos
E todos os teus gestos só enredos
De uma novela fora deste mundo

Se todos os teus choros fossem raiva
E os dedos fossem pontas de navalha
Os olhos, de repente, a luz que crava
A lança quando o coração te falha

Se a luz do teu sorriso fosse fogo
E o som da tua voz fosse um punhal
Que brilha ao escuro na Hora do Lobo
Quando um suspiro sopra um vendaval

Espero por ti
Na Hora do Lobo
Quando as nossas sombras são iguais
Espero por ti
Na Hora do Lobo
Se estamos juntos não somos demais

Se todos os teus passos fossem grandes
Correndo todo o mundo num só salto
E os braços fossem asas esvoaçantes
Da Águia que vigia lá no alto

Se todas as fraquezas fossem forças
Daquelas que rebentam as muralhas
Que crescem pelo meio das tuas rotas
E que te põem dentro das batalhas

Se toda a tua vida fosse tua
E o teu destino fosse teu refém
Se a Terra toda fosse a tua rua
E a tua rua fosse de ninguém

In a A hora do lobo, Luís Represas, 1998

A Hora do Lobo é a hora que ocorre entre as três e as quatro da manhã.
Nas fragas… a Hora do Lobo são todas aquelas intermináveis horas da meia-noite às primeiras horas que antecedem a aurora. Horas em que só os loucos ou os incautos se atrevem a sair da segurança do seu lar e a caminhar lado a lado com demónios.
Hora em que os mais profundos temores assaltam a existência dos vivos, hora em que se morre, hora em que se nasce…
Mas a hora do lobo povoada de maus sonhos, premonições e maus agoiros é também a hora em que a fêmea Alpha pode libertar-se dos seus afazeres maternais e correr livre com a matilha como o fazia no início dos tempos.
É a hora em que as mulheres do meu povo impunham a sua escolha decidindo quem ficava e quem partia.
É a hora em que sempre acordo surpreendentemente desperta e vagueio na brisa da noite.
É a Hora da Loba, da loba que existe em cada mulher.

September 16, 2006


A minha arte

"Cada quadro encerra misteriosamente toda uma vida, com muitos sofrimentos, dúvidas, horas de entusiasmo e de iluminação. Para onde se dirige esta vida?"
in Do Espiritual na Arte, W.Kandinsky


A minha arte é uma amante caprichosa com vida e exigências próprias que me cumprem satisfazer.
Voltarei em breve.

(Egon Schiele, Mulher Sentada com a Perna Esquerda Levantada)

September 14, 2006


It's who you are

"She never took the train alone
she hated being on her own
She always took me by the hand
and says she needs me
She never wanted love to fail
she always hoped that it was real
She'd look me in the eyes and say believe me
But then night becomes the day
and there's nothing left to say
If there's nothing left to say
then something's wrong

Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild

And as the hands would turn with time
she'd always say hat she was my mine
She'd turn and lend a smile
to say that she's gone
But in a whisper she'd arrive
and dance into my life
Like a music melody
like a lovers song

Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild

Through the darkest night
comes the brightest light
And the light that shines is deep inside
It's who you are

Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful, beautiful
Oh tonight you killed me with your smile
so beautiful and wild so beautiful and wild
So beautiful and wild
So beautiful and wild"


By Reamon, Tonight

Liguei o pequeno leitor que incansavelmente transporto comigo.
Percorri um a um os temas que me enchem a alma de música.
Mas algo de mim se recusava a ouvi-los.
Liguei o rádio.
Passava esta música.

(Baby, Jack Vettriano)

September 12, 2006

Ritmo

"Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como
a dos Rothschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera,
para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o
passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, que

é o único que se deve ter na vida."
in Os Maias, Eça de Queirós

Quisera eu ter doze anos e regressar ao braços da ria que corria calma e ondulante, onde os peixes se me prendiam nas mãos e as aves se me repousavam no corpo.
Lembro-me do passo preguiçoso que me conduzia a casa onde me esperava quase sempre um banho de mangueira para retirar "o principal" pois o resto era retirado à força de uma escova que me escoriava o corpo.
Lembro-me dela a remendar-me os calções e as camisolas e a suspirar baixinho de alívio por eu chegar a casa inteira.
Ensinou-me que o dia é imenso se soubermos o que fazer com ele, se soubermos aproveitá-lo. Hoje parei e lembrei-me dela.
Amanhã? Amanhã não serei deste ritmo louco mas o ritmo será meu.
Ela? Acho que irá sorrir e velar para que eu me alimente como deve ser...

(Photograph by James L. Stanfield; Tashigang, Bhutan)

September 09, 2006

Às vezes, há noites assim

"It is the crimson, not the gray,
That charms the twilight of all time;
It is the promise of the day
That makes the starry sky sublime;

It is the faith within the fear
That holds us to the life we curse; --
So let us in ourselves revere
The Self which is the Universe!

Let us, the Children of the Night,
Put off the cloak that hides the scar!
Let us be Children of the Light,
And tell the ages what we are! "

in The Children of the Night by Edwin Arlington Robinson

As luzes da cidade, pequenos pontos cintilantes, clareavam a noite escura de lua velada.
Para alguns, a noite apenas começara e percorriam avidamente as ruas em busca do esquecimento para a semana de trabalho que terminara.
Aqui e ali, nas sombras, corpos ofereciam-se a animais esfaimados que passavam mas sempre com a esperança de sobreviverem a cada eterno encontro.
Almeidas listrados carregavam detritos numa azáfama constante de quem quer recolher a casa cedo e deixar para trás a imundíce dos outros.
Vi a cidade, as luzes, os ruídos ficarem para trás.
Um cheiro intenso e familiar inundou-me o corpo e a brisa suave deu-me as boas vindas.
Fiquei imóvel, não me recordo de quanto tempo, a ouvir o seu rugido constante.
De manhã sossegou e eu com ele.
Regressei a casa e adormeci.
Às vezes, há noites assim.

(Photograph by Sam Abell; Port Campbell National Park, Victoria, Australia)



September 06, 2006

Prende-me a ti!

"Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!"

In O Principezinho, Saint Exupéry

Estacou por uns instantes e perguntou-me se poderia ser minha amiga.
Fala por vezes um pouco demais e indagava-se se eu, entre os meus silêncios, seria capaz de suportar toda a sua algazarra.
Respondi-lhe que sim mas que a amizade tinha de ser trabalhada, construída e cuidada como a bela rosa do Pequeno Princípe.
Anuiu...e permaneceu em silêncio.

(National Geographic; Photograph by James P. Blair;Istrian Peninsula, Croatia)

August 31, 2006

Limites

"Cada vez menos pessoas pensam que o mundo se restringe à sua aldeia ou ao seu país e rimo-nos hoje com o facto de certos povos pensarem que eram o centro do Universo, que o mundo acabava nas fronteiras do seu país. No entanto, continuamos limitados por conceitos culturais e, para muitos seres humanos, o renascimento e os seis mundos são tão inconcebíveis como a Via Láctea para uma formiga."
in A Arte da Vida, Tsering Paldrön

É dentro de mim que encontro em cada dia as maiores limitações e os maiores desafios.



(Photograph by George F. Mobley, Bavaria, Germany)

August 30, 2006


O Meu País

"Um país pequenino com gente à sua medida."
(in Irreflexões by Y.K.Centeno)

Algures no tempo e no espaço, descobri esta inscrição num pequeno livro de poemas que arrastava comigo.
Entranhou-se.
O aparente desencantamento com as gentes que habitam este pedaço de terra, a que convencionaram chamar Portugal, era notório e talvez um pouco desconcertante para mim na altura.
E contudo...existem dias em que concordo com cada pedacinho desta frase mas, existem também muitos outros em que, acho que podemos fazer mais e melhor e que o que conseguimos até hoje é, apesar de tudo, louvável!
Não partilho da opinião de que, enquanto povo, somos piores do que qualquer outro mas, concordo que, enquanto não se apostar na educação de um povo, como um todo, de forma sistemática, integrada e consistente, continuaremos com sérias limitações em todos os campos da nossa actividade humana.
Enquanto a retroversão de um livro, vendido em Londres a 10 euros, para a língua portuguesa se traduzir em três livros distintos, cada um com um custo de 20 a 25 euros, dificilmente o cidadão comum poderá dar-se ao luxo de o adquirir e apenas se poderá limitar a empobrecer espiritualmente dia após dia.
A utilização de manuais técnicos em português do Brazil contribuem igualmente para o empobrecimento gradual de cada um de nós. Impõe-se salientar as semelhanças, é certo, mas também salvaguardar o que de nós é único.
Uma análise da realidade alemã e do impacto dos desinvestimentos sistemáticos verificados na área da educação permitir-nos-iam, quando muito, esboçar algumas suspeitas de eventuais relações entre educação, economia e atritos sociais.
Eu por mim, sei o que faço até ao Natal!
Impõe-se calcorrear as ruas do meu País e descobrir para cada amigo, um livro que ele/ela possa amar nos dias que se seguem ao dia de Natal!


(Photograph by W. Robert Moore, Lisbon, Portugal)

August 26, 2006

One Day Of Wind And Rain


Blow, Blow, Thou Winter Wind

Blow, blow, thou winter wind,
Thou art not so unkind
As man's ingratitude;
Thy tooth is not so keen
Because thou art not seen,
Although thy breath be rude.
Heigh-ho! sing heigh-ho! unto the green holly:
Most friendship is feigning, most loving mere folly:
Then, heigh-ho! the holly!
This life is most jolly.
Freeze, freeze, thou bitter sky,
Thou dost not bite so nigh
As benefits forgot:
Though thou the waters warp,
Thy sting is not so sharp
As friend remember'd not.
Heigh-ho! sing heigh-ho! unto the green holly:
Most friendship is feigning, most loving mere folly:
Then, heigh-ho! the holly!
This life is most jolly.


By William Shakespeare

(Photograph by Michael Yamashita, Jay Peak, Vermont )