
Boas Entradas em 2009!

Trago no corpo o cansaço acumulado de muitos dias.Miles Davis (from a Kind of Blue) with John Coltrane
So What
Gosto de abrir os meus presentes com cuidado. Entendo ser a atenção que se impõe a quem os dá e a consideração devida à velha arte de embrulhar presentes. Hoje, pouco cuidado há, é certo. Tempos de sacos de papel, caixas pré-feitas, plásticos agrafados. Não há tempo a perder nem tão somente atenção ou delicadeza.
Tomasz Stanko & Edward Vesala - First Song
[Tomasz Stanko - Trumpet; Edward Vesala - Drums; Tomasz Szukalski - Saxophone; Pekka Sarmanto - Bass ]
Uma vez por outra, compro uma revista mensal sobre novidades tecnológicas. É tradição, a capa, apresentar uma mulher semi-nua. Não percebo o sentido da coisa mas, enfim, imbecilidades à parte, é uma revista interessante. E é divertido que numa revista se possam encontrar as novidades tecnológicas da Ferrari e da Porche a par com máquinas de lavar roupa inteligentes e chuveiros de hidromassagem da última geração. Mais do que estar a par dos desenvolvimentos em tecnologia de video/imagem ou motorizada, o que me interessa mesmo são aquelas pequenas coisas que podem melhorar grandemente a minha qualidade de vida. Televisão quase não vejo, pelo que, o velhinho televisor cumpre perfeitamente o seu objectivo, apesar de demodée. Mas, o que me deixa mesmo, mesmo, de olhos arregalados são os aspirados robotizados, embora acredite que o meu fiel companheiro não vá ficar feliz com a ideia!
Terminei o dia distribuindo convivas deixados para trás na toada do champanhe. Ela esteve perfeita toda a noite. Rodeou o seu par, deu atenção aos pais, aos amigos e a todos os outros desconhecidos que se lhes juntaram para festejar a data. Ele cuidou da miudagem, assegurou que comessem, que brincassem e deixou-os mesmo espetar os deditos pequenos e rechonchudos nos cremes dos bolos. Eles ficaram felizes e ele achou que era o que se impunha. Diverti-me, confesso. Apesar da insistência, dos dois, em que provasse de tudo um pouco e dos beijos daqueles primos, que não via à séculos, e de quem fugi toda a noite. A minha parcimónia para costumeiras conversas não é exemplar. Mas os casamentos são uma admirável pantomina a que acho verdadeiramente educativo assistir. Não me via ali, no papel dela. Suplício o da pobre criatura que partilhasse comigo um espaço físico! Sei de olhos fechados onde pousei cada caneta, cada lápis, cada esferográfica, cada pedaço de coisa que por aqui se vê pronta e escorreita. E apenas aos bichos desta casa é dada essa estranha liberdade de tudo alterar, de tudo desarrumar, de tudo partilhar...
Esgotei o meu mal, agora
O prédio é novo. Não oiço os vizinhos e não conheço grande parte deles. Não sou um animal curioso. Se o são em relação a mim, desconheço. Desagrada-me essa familiaridade a soar a falso que alguns citadinos cultivam em memória de lugares que são já só sonho. A "terra", a eterna quimera desta gente perdida entre horas de ponta e os arrabaldes de uma cidade que receiam. São de lado nenhum, barcos sem amarras levados pela maré da lua nova. O prédio já esteve todo ele habitado. Agora, aqui e ali populam anúncios de imobiliárias. Vende-se, dizem. Das gentes que ali moravam antes?! Nada sei. Saíram assim de mansinho, envergonhados. Ousaram sonhar. Ousaram arriscar. Não são pobres, diz-se. Sim, não são pobres. Não os hei-de ver na sopa dos pobres enrolados em cobertores, arrastando os seus últimos despojos, não os hei-de ver deitados na lage molhada da rua, debaixo de cartão grosso, não os hei-de ver a cravar o cigarrinho da ocasião...nem eu nem ninguém, não os havemos de ver...E, num país onde a pobreza só é reconhecida se for vista. Temo o pior.O meu amor pelo Jazz trouxe-me uma estranha capacidade de apreciar o som, o silêncio e todas as coloridas nuances que habitam no hiato entre os dois. Cresci com cada novo lp, cada novo cd. Não foi um crescimento sem dores, sem rebeldias. Aprender não é fácil, exige persistência, disciplina, reconhecer falhas e saber recomeçar uma e outra vez. Por vezes, do zero.
Com o piano, o relacionamento nunca foi fácil, nunca foi franco.
Felizmente, tive um excelente professor.
Summertime by Keith Jarrett
Un très grand poète et une très belle chanson que j'adore ...
"...Cette rumeur qui vient de là
Sous l'arc copain où je m'aveugle
Ces mains qui me font du fla-fla
Ces mains ruminantes qui meuglent
Cette rumeur me suit longtemps
Comme un mendiant sous l'anathème
Comme l'ombre qui perd son temps
À dessiner mon théorème
Et sous mon maquillage roux
S'en vient battre comme une porte
Cette rumeur qui va debout
Dans la rue, aux musiques mortes
C'est fini, la mer, c'est fini
Sur la plage, le sable bêle
Comme des moutons d'infini...
Quand la mer bergère m'appelle"
La mémoire et la mer
Léo Ferré
Às quatro dezenas somou mais um ano. Carinhosamente, como se faz a um amigo querido, desejei-lhe um bom ano. Sorriu e indicou-me tratar-se de um assunto sensível. O filho já lhe ganha em altura. O buçozinho renitente transformou-se em barba feita. O pai apercebe-se agora que passaram já muitos dias desde a sua aurora. Vê o seu horizonte encurtar-se. A realidade tomou-o de sobressalto num dia de anos.
Longe do murmúrio das cidades, nas terras esquecidas por Deus e pelo Homem, o velhos falam de mistérios que nos recordam outros tempos de sombras, dúvidas e medos. À luz da fogueira nocturna, entre as labaredas ateadas para aquecer o trabalho da eira, o milho rei, parece mais brilhante que nunca. Encontrá-lo, dizem os velhos, é sinal de boa sorte. Mas, o trabalho é árduo e ainda agora se iniciou. Noite dentro, as canas acamadas na eira, são desfolhadas revelando o trabalho de um ano. Espigas douradas, doces e de bom tamanho trazem a fortuna dos homens. Espigas que os espigueiros, em breve, acolherão.
De Madonna?! Nada de muito relevante a apontar. Um caso de estudo, para os especialistas de marketing e imagem. Pela capacidade de se reinventar, de transformar e de reusar conceitos, técnicas, imagens, ideias, pressupostos, preconceitos...
Ainda trago em mim o seu cheiro.
O vento regressou. Por fim.Train Of Thought - Sebastian Noelle Quintet
Por estes dias dediquei-me a um exercício que me foi proposto faz tempo.
Identificar, de entre os meus cds, os 10 de que mais gosto.
Um observador atento dirá que fiz batota - creio que com razão - mas é uma primeira aproximação que considero louvável dado o esforço que implicou:
John Coltrane, My Favorite Things [61]
Miles Davis and Gil Evans, The Complete Columbia Studio Recordings [57-68]
Eric Dolphy, Out to Lunch [64]
Joe Lovano, From the Soul [91]
Oscar Peterson, Night Train [62]
Thelonious Monk Quartet, Misterioso [58]
Gerry Mulligan, Re-Birth Of The Cool [92]
Esbjorn Svensson Trio, Viaticum [05]
Chet Baker & Paul Bley, Diane [85]
Charlie Parker, Complete Jazz at Massey Hall [53]

Aborreço-me. Confesso.
Tigela. Leite morno. Sob a sua supervisão atenta, deixo cair vagarosamente, no líquido, a farinha de um amarelo esbatido. Mexer. É preciso mexer. Tem os braços cruzados sobre o peito. Ar de reprovação estampado no rosto. Condescendeu em partilhar comigo o seu pequeno almoço mas não lhe parece bem, não lhe parece bem! O papá e a mamã não comem da minha papa! Não és muito velha para comer papa?
"Senhor que estás na feira,
The Chance to Love Everything
22 Horas. O telemóvel toca. Número privado.
Há dias em que sinto em mim a idade da terra. Imensa. Antiga. Cansada.
Amanheço cedo. Sempre. O frio cortante da manhã que me obriga a aconchegar-me melhor. Os fios de luz deitados no meu cobertor de lã. A claridade que se intensifica. O dia que se adivinha.
Faz tempo já que coloquei um counter no Anonyma. Um desses utilitários que abundam por aí e nos permitem manter um registo do número de visitas diárias. Na altura pareceu-me inverosímil que alguém se entretesse a ler as minhas divagações ocasionais. Nunca me ocorrera de facto a possibilidade. Apenas isso. Colocar o counter foi uma concessão à minha incredulidade. Feito.Estive ausente deste tempo e espaço. A bola de cristal que habitamos manteve a sua rotação, alheia a intempéries ou bonanças. Alheia ao custo dos combustíveis e às margens fabulosas das organizações empresariais. Alheia à sorte de uma selecção que chora o seu triste fado, em vez de elogiar o seu adversário, e de se preparar para fazer melhor. Alheia à arrogância dos políticos que insistem em salvar um nado morto. Não ver, não ouvir, não falar. Alheia à descredibilização dos exames nacionais. Vendo bem, o país não tem recursos para suportar estes alunos que ficam para trás...Alheia à mediocridade, à rapacidade...
16 de Abril 1964 - 14 de Junho 2008 - Esbjörn Svensson
Pianista de Jazz cujo nome deu origem aos Esbjörn Svensson Trio ou E.S.T. como é vulgar designá-los. Ferido num acidente de mergulho não foi possível reanimá-lo durante o transporte para o hospital.
Leucocyte. O seu 12º album será lançado em Setembro.
No topo da minha lista de compras...
Tenho todos os seus albuns. O que mais amo? Viaticum.
Mas como maus albuns é algo que não têm, deixo-vos com From Gagarin´s Point Of View do album From Gagarin´s Point Of View de 1999.
Melhora certamente o meu humor e talvez vos adoce o fim de semana...
;)
"Je suis un acrobate de la forme, créateur de formes, joueur avec les formes.
Há alguns anos tive um acidente. Aparentemente, o animal que dentro de mim habita, recusou-se a desistir.Cause she's great and this song is absolutely fab!

Rolo a cigarrilha entre os dedos, num gesto mecânico, que só o olhar atento de outros revela.
Mais um dia cinzento. Apenas mais um.Esbjörn Svensson Trio
When God Created The Coffeebreak (live)
Só podia. Certo?
;)