December 30, 2008


Se não nos virmos antes...
Boas Entradas em 2009!



Freddie Hubbard
7 de Abril de 1938 - 31 de Dezembro de 2008
Não entendo as tarefas como senhoras de uma natureza. Nada que disciplina, empenho e, muitas vezes, imaginação não ultrapassem. No entanto, este pequeno texto descreve com segura exactidão algumas criaturas que conheço e a quem não confiaria nem as minhas crianças, nem os meus animais...


Carta do marido para a mulher em férias

Querida,
Muito obrigado pela tua linda e carinhosa carta.
Podes ter a certeza de que eu sei tratar de mim, por isso, não te preocupes comigo.
Durante a tua ausência, não se tem passado nada de especial cá em casa.
Enquanto estás fora, tenho preparado o meu próprio almoço, e todos os dias me espanto de como tudo tem saído bem!...
Já que estou sempre com pressa, ontem decidi fazer batatas fritas.
Já agora, diz-me uma coisa: era preciso descascar as batatas?
Enquanto estavam a fritar, aproveitei para ir buscar uns brioches à padaria.
Quando voltei, o esmalte da frigideira tinha derretido.
Nunca pensei que o estupor da frigideira aguentasse tão pouco.
E tu que me dizias que o Teflon aguentava tudo e mais alguma coisa!
Já consegui tirar toda a fuligem da cozinha, mas o nosso gato Fred, é que ficou preto que nem um tição, e agora tosse o dia inteiro... Desde esse dia entra em pânico e foge quando mexo nas panelas ou abro o bico do fogão.
Já que pelo menos uma vez por dia preciso de uma refeição mais elaborada, quando estou a fazê-la, o Fred dá 'às de Vila Diogo' e só aparece passadas umas horas ...
Diz-me outra coisa: quanto tempo é que é preciso para cozer os ovos?
Eu já os pus a ferver há duas horas, mas mesmo assim, continuam duros que nem uma pedra!
Também queria que me dissesses se pode aproveitar leite queimado.
Queres que o guarde na despensa até tu voltares?
Na semana passada tive um pequeno contratempo ao cozinhar umas ervilhas.
Vou-te contar: agarrei numa lata e decidi aquecê-la.
Mas, infelizmente, explodiu dentro do microondas.
A porta do microondas foi projectada para fora da cozinha e foi dar contra a nossa pequena estufa de inverno, que claro, ficou partida, assim como a janela.
Como a janela estava fechada (preciso de a fechar antes de começar a cozinhar, senão os bombeiros aparecem outra vez), a porta do microondas arrancou-a também, tal foi a força.
Por sua vez, a lata de ervilhas, parecia um foguete a levantar voo!...
Atravessou o tecto e foi embater na filha do Freitas, o nosso vizinho de cima.
Parece-me que ela ficou bem...
Outra coisa: já te aconteceu a louça suja ficar com mofo?
Como é que isto se pode dar em tão pouco tempo?
Afinal, tu foste de férias no mês passado, mas parece que foi ontem!
Aliás, atrás do lava-louças há montes de bichos; daqui a pouco até vai dar para fazer um documentário e vendê-lo ao 'National Geographic'...
De onde é que saíram tantos bichos cheios de pernas?
Puseste alguma coisa que não devias lá atrás?
Bom, isto acabou por fazer com que eu tomasse uma atitude e lavasse a louça.
Por favor não me insultes, meu amor, mas aquele lindo serviço de jantar de porcelana da tua avó, já era...
Eu realmente não contava com isso, afinal de contas parecia tão robusto e sólido!
Bom, talvez eu tenha exagerado um bocadinho ao pôr o lava-louças no 'programa completo com centrifugação'...
Aliás, a máquina de lavar roupa também se escangalhou.
A faca de aço temperado que eu pus lá dentro, sem querer, estragou o cilindro durante a centrifugação, porque ficou presa na parede interna.
Quanto ao cilindro, atravessou a parede de tijolos, fazendo um pequeno buraco, e foi aterrar no jardim.
Durante um dos almoços, sujei a carpete persa com molho de tomate.
Sempre me disseste que as manchas do molho de tomate são impossíveis de tirar.
Ficas a saber, meu amor, que com um bocadinho de aguarrás, sai tudo, mas mesmo tudo, inclusivamente, a lã e a seda da carpete.
O frigorífico estava a fazer muito gelo, por isso, tive que o descongelar.
Tenho que te ensinar uma coisa: o gelo sai facilmente se o raspares com uma espátula de pedreiro!
Só não sei é porque é que agora passou a aquecer...
O iogurte, a água com gás e o champanhe, explodiram.
Sabes, querida, na passada quinta-feira, esqueci-me de, ao sair, fechar à chave a porta de casa.
Alguém deve ter entrado, porque faltam algumas coisas de valor, entre elas, aquele colar de marfim que o teu bisavô trouxe da expedição a África, no século XIX.
Mas, como tu costumas dizer, o dinheiro não dá felicidade, e tudo o que é material, é efémero.
O teu guarda-vestidos também está vazio, mas penso que não devem ter levado muita coisa, já que, sempre que saímos, tu dizes que não tens nada que vestir...
Bom, vou ficar por aqui, mas amanhã conto-te mais coisas!
Espero que te descontraias bastante no SPA e que gozes muito o teu descanso.
Beijos mil, com muito amor, do teu Afonso que muito te ama!!!

P.S.: A tua mãe veio cá ver como estavam as coisas, e teve um enfarte.
O velório foi ontem à tarde, mas eu preferi não te contar nada para não te estragar as férias e aborrecer-te desnecessariamente.
Afinal de contas, tens que aproveitar as tuas férias e voltares muito descontraída do teu SPA.
Beijos, do teu dedicado marido.
Os vidros embaciados, o toque contínuo das buzinas, as manobras bruscas em passo lento e os esgares de desespero dão-nos um vislumbre de um compasso que se acredita interminável. Depois de dias frenéticos de compras, correrias, desapontamentos, contentamentos, hei-los em nova corrida desenfreada. Os saldos estão na rua. É hora de consumir, consumir, consumir...Janeiro, Fevereiro e Março serão cinzentos! Mas já o eram antes de "La Crise, La Crise", como diria Madame Barber. Por isso, faça-se a festa, lancem-se os foguetes...e cá estaremos, os do costume, para apanhar os caniços.

December 25, 2008




Nat King Cole
The Christmas Song

Atrasei-me um pouco, é certo, mas desejo-vos a todos um FELIZ NATAL!
Art from Norman Rockwell

December 15, 2008

December 12, 2008

Trago no corpo o cansaço acumulado de muitos dias.
De noites despertas, de prazos apertados, de impossibilidades concretizadas.
Do mar na pele, já só recordo gotas de chuva e, o seu gosto a sal é, agora, uma experiência longínqua.
O mar que tanto me falta...
Por aqui, acumulam-se teias e exigências perdidas.
John Coltrane & Miles Davis embalam-me. Cannonball e Evans completam-nos.
É tempo de repousar. De regressar ao mar.
Bom Fim de Semana

December 11, 2008

Miles Davis (from a Kind of Blue) with John Coltrane

So What

December 09, 2008

Fragile by Cassandra Wilson

Em tempo de embrulhos...há que aprender a embrulhar...
Gosto de abrir os meus presentes com cuidado. Entendo ser a atenção que se impõe a quem os dá e a consideração devida à velha arte de embrulhar presentes. Hoje, pouco cuidado há, é certo. Tempos de sacos de papel, caixas pré-feitas, plásticos agrafados. Não há tempo a perder nem tão somente atenção ou delicadeza.
Parte dos meus dias, consumo agora nessa demanda de presentes para as épocas que se adivinham. Percorro quilómetros, palmilho quarteirões, descubro todos os sites sobre o assunto, encomendo-os de outras terras e a outras gentes. Faço-o por gosto e por gosto, apenas. Por fim, embrulho-os, um a um, em rituais de origami, ornamentados por laços coloridos e aguardo. Aguardo para ver alguns sorrisos rasgados e a excitação dos minutos contados.

November 14, 2008

November 12, 2008

Art from Georges Prosper Remi
"On the whole, British political culture has not been corrupt, and I don't believe it is now; but when the electorate starts to worry that a culture of corruption is creeping in, then a government is in trouble. If, as now seems likely, a general and false belief is taking hold that politicians are as bad as each other, and are all in it out of self-interest, then trust has broken down, and the consequences for civic life will be a catastrophe on a Sicilian scale.
The principle of "Caesar's wife" is absolutely vital for any government seeking to uphold public rectitude; what may carry more direct weight is the consideration that it is also vital for a government seeking re-election. Nobody wants to make it easier for a paper, on an idle day, to hound innocent ministers out, but there is a simple rule that ought to apply without exception; that if questions of conduct lead to the case being referred to the Commissioner for Parliamentary Standards, in no circumstances may the minister remain in office.
That may seem hard if the accusations come to nothing, but governments must accept that the appearance of corruption can be as damaging as the reality, and that the insistence on quite irrelevant legal principles is apt only to increase cynicism and disenchantment among the people it is meant to reassure."

From Like Caesar's wife, a politician should be above suspicion
By Philip Hensher
Friday, 23 March 2001, The Independent

Há sete anos atrás este foi um dos temas quentes em Inglaterra. Por cá, obviamente este tipo de questões, nem se põem.

Esbjörn Svensson Trio - Behind The Yashmak (live)


Tinha um medo irracional de cães. O assunto era tabu e abordá-lo requeria o maior dos tactos. Resistiu o que pôde a visitar-me. Quando a questão se tornou incontornável, veio ver-me.
Fiz as honras da casa e fui esperá-lo ao passeio. Não tinha ideia de lhe ser tão difícil a manobra de estacionamento mas resignei-me e aguardei pacientemente. Saiu do carro e alertou-me “Tenho medo de cães! Olha que eu tenho medo de cães!”. Nem bom dia nem boa tarde, apenas o medo. Procurei tranquilizá-lo. Mas como se tranquiliza um medo irracional?!? Racionalizando-o?!! Tentei, sem resultados visíveis. Nos parcos metros que separavam a sua viatura parqueada da porta de minha casa, resmungou entre dentes. O resmungar dos miúdos pequenos contrariados. Quando chegámos, expliquei-lhe “Vai ladrar! Muito. Estás a entrar no seu território e não te conhece. Entras comigo, calmamente, sentas-te e aguardas imóvel.”
Na verdade, receio que mais imóvel seria impossível!
O meu bom pastor, ladrou, ladrou e voltou a ladrar. Quando lhe retorqui que tivesse juízo e não fosse tonto, decidiu-se a cheirá-lo. Nariz, nariz, nariz outra vez, nariz mais uma vez, pata, pata, duas patas...língua, língua, patas...sofá... já está...deitado de barriga para o ar...
E o homem grande de gestos largos que vi entrar, encolheu, encolheu, encolheu...e quem ali vi, todo o resto de tarde, foi um miúdo de doze anos que um dia teve medo de cães...

November 09, 2008


The Animals Save the Planet

(Art from Juan Muñoz, Many Times)

Uma massa indistinta de gente enche a sala. Interagem num ruidoso silêncio a que não somos indiferentes. Pequenos grupos que se formam, cuja atenção parece centrada em si próprios e na relação de uns com os outros. E, no entanto, não somos alheios aos olhos colados nas nossas nucas e que nos fazem sentir o rato no seu labirinto. Sentimos no sangue a nossa estranheza. Há quem nos encare como que se perguntando o que fazemos ali, e eu pergunto-me, quem está em exposição, eu ou eles?

Juan Muñoz, Uma retrospectiva
02 Nov 2008 a 18 Jan 2009
Em Serralves.
O Bom: a exposição, o bilhete a três euros e, claro...Serralves.
O Mau: o custo do catálogo (fabuloso, é um facto) e a distância, para alguns.

Tomasz Stanko & Edward Vesala - First Song
[Tomasz Stanko - Trumpet; Edward Vesala - Drums; Tomasz Szukalski - Saxophone; Pekka Sarmanto - Bass ]


October 26, 2008


Chelsea Bridge by Gerry Mulligan & Ben Webster

Uma vez por outra, compro uma revista mensal sobre novidades tecnológicas. É tradição, a capa, apresentar uma mulher semi-nua. Não percebo o sentido da coisa mas, enfim, imbecilidades à parte, é uma revista interessante. E é divertido que numa revista se possam encontrar as novidades tecnológicas da Ferrari e da Porche a par com máquinas de lavar roupa inteligentes e chuveiros de hidromassagem da última geração. Mais do que estar a par dos desenvolvimentos em tecnologia de video/imagem ou motorizada, o que me interessa mesmo são aquelas pequenas coisas que podem melhorar grandemente a minha qualidade de vida. Televisão quase não vejo, pelo que, o velhinho televisor cumpre perfeitamente o seu objectivo, apesar de demodée. Mas, o que me deixa mesmo, mesmo, de olhos arregalados são os aspirados robotizados, embora acredite que o meu fiel companheiro não vá ficar feliz com a ideia!
Em todo o caso, existem três pequenos gadgets dos quais decididamente não prescindo. O meu Creative Zen X-Fi, um leitor mp3, que me permite transportar todos os meus albums de jazz, em formato SD, para qualquer ponto do globo. O meu velhinho eee PC 701. Um portátil miniatura que me acompanha para qualquer lado graças aos seu magníficos 900 gramas. Acabaram-se as dores nas costas ou a mochila extra. É só mais um livro que levo na mão. E, the last but not the least, a minha escova de dentes eléctrica e recarregável da Braun. Espalho-as por todos os meus destinos prováveis, sigo atentamente o lançamento dos seus novos modelos e uma sensação de quase pânico envolve-me quando me deparo com um desses velhinhos modelos manuais...Oh la la!

October 22, 2008

The Things We Did Last Summer by Fats Navarro

Terminei o dia distribuindo convivas deixados para trás na toada do champanhe. Ela esteve perfeita toda a noite. Rodeou o seu par, deu atenção aos pais, aos amigos e a todos os outros desconhecidos que se lhes juntaram para festejar a data. Ele cuidou da miudagem, assegurou que comessem, que brincassem e deixou-os mesmo espetar os deditos pequenos e rechonchudos nos cremes dos bolos. Eles ficaram felizes e ele achou que era o que se impunha. Diverti-me, confesso. Apesar da insistência, dos dois, em que provasse de tudo um pouco e dos beijos daqueles primos, que não via à séculos, e de quem fugi toda a noite. A minha parcimónia para costumeiras conversas não é exemplar. Mas os casamentos são uma admirável pantomina a que acho verdadeiramente educativo assistir. Não me via ali, no papel dela. Suplício o da pobre criatura que partilhasse comigo um espaço físico! Sei de olhos fechados onde pousei cada caneta, cada lápis, cada esferográfica, cada pedaço de coisa que por aqui se vê pronta e escorreita. E apenas aos bichos desta casa é dada essa estranha liberdade de tudo alterar, de tudo desarrumar, de tudo partilhar...

October 20, 2008

Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
By Sophia de Mello Breyner Andresen
(Rainy Day by Steve Johnston)

How Long Has Thing Been Going On - Ben Webster

(sem palavras...)

October 13, 2008

Brad Mehldau - River Man

O prédio é novo. Não oiço os vizinhos e não conheço grande parte deles. Não sou um animal curioso. Se o são em relação a mim, desconheço. Desagrada-me essa familiaridade a soar a falso que alguns citadinos cultivam em memória de lugares que são já só sonho. A "terra", a eterna quimera desta gente perdida entre horas de ponta e os arrabaldes de uma cidade que receiam. São de lado nenhum, barcos sem amarras levados pela maré da lua nova. O prédio já esteve todo ele habitado. Agora, aqui e ali populam anúncios de imobiliárias. Vende-se, dizem. Das gentes que ali moravam antes?! Nada sei. Saíram assim de mansinho, envergonhados. Ousaram sonhar. Ousaram arriscar. Não são pobres, diz-se. Sim, não são pobres. Não os hei-de ver na sopa dos pobres enrolados em cobertores, arrastando os seus últimos despojos, não os hei-de ver deitados na lage molhada da rua, debaixo de cartão grosso, não os hei-de ver a cravar o cigarrinho da ocasião...nem eu nem ninguém, não os havemos de ver...E, num país onde a pobreza só é reconhecida se for vista. Temo o pior.

October 09, 2008

O meu amor pelo Jazz trouxe-me uma estranha capacidade de apreciar o som, o silêncio e todas as coloridas nuances que habitam no hiato entre os dois. Cresci com cada novo lp, cada novo cd. Não foi um crescimento sem dores, sem rebeldias. Aprender não é fácil, exige persistência, disciplina, reconhecer falhas e saber recomeçar uma e outra vez. Por vezes, do zero.
Com o piano, o relacionamento nunca foi fácil, nunca foi franco.
Felizmente, tive um excelente professor.

Summertime by Keith Jarrett

October 08, 2008

Un très grand poète et une très belle chanson que j'adore ...

"...Cette rumeur qui vient de là
Sous l'arc copain où je m'aveugle
Ces mains qui me font du fla-fla
Ces mains ruminantes qui meuglent
Cette rumeur me suit longtemps
Comme un mendiant sous l'anathème
Comme l'ombre qui perd son temps
À dessiner mon théorème
Et sous mon maquillage roux
S'en vient battre comme une porte
Cette rumeur qui va debout
Dans la rue, aux musiques mortes
C'est fini, la mer, c'est fini
Sur la plage, le sable bêle
Comme des moutons d'infini...
Quand la mer bergère m'appelle"

La mémoire et la mer
Léo Ferré

October 07, 2008

Somewhere Over the Rainbow by Eva Cassidy

Às quatro dezenas somou mais um ano. Carinhosamente, como se faz a um amigo querido, desejei-lhe um bom ano. Sorriu e indicou-me tratar-se de um assunto sensível. O filho já lhe ganha em altura. O buçozinho renitente transformou-se em barba feita. O pai apercebe-se agora que passaram já muitos dias desde a sua aurora. Vê o seu horizonte encurtar-se. A realidade tomou-o de sobressalto num dia de anos.
Alguns dias depois, uma colega afunda a cabeça entre as mãos e confidencia-me baixinho que fez cinquenta anos. Sente-se deprimida. Apetece-lhe chorar.
É certo. Envelheci. Não tenho mais dez, vinte ou trinta anos. As rugas de expressão estão mais fundas. O meu corpo mudou. Mas eu, que não acredito na eternidade desse sentimento fortuito chamado felicidade, tenho tido os meus momentos. Hoje, muito mais do que antes.
Não sei o que o futuro me reserva. Aos olhos da cigana as cartas nada revelam pois, do viajante, apenas se pode adivinhar o seu paradeiro e não o seu destino. Mas ainda me indigno, ainda discordo, ainda defendo, ainda acredito e talvez por isso o meu caminho não seja já só a réstia de um sonho...

September 26, 2008

September 24, 2008


Ao fim de cinco ou seis tentativas infrutíferas, e embora lhe reconheça o espírito, optei por manter a distância. Por ora.
Os livros têm momentos. Se os apanharmos no instante certo, ensinam-nos os caminhos do Jardim do Paraíso. Senão, são apenas pedras perdidas na mochila do caminhante.
Até já, foi a mensagem inscrita.
Depois? Depois se verá.
Mas, ao homem por trás da máscara, não deixo de reservar alguma admiração.
Pela lucidez. Pela consistência.
E por isso, costumo passar pelo seu caderno (http://caderno.josesaramago.org/).

É certo que a cana do rio cede e por isso outro dia lhe é dado.
Mas será a sua natureza a mesma?

September 21, 2008


Miles Davis Quintet
'Round Midnight

Longe do murmúrio das cidades, nas terras esquecidas por Deus e pelo Homem, o velhos falam de mistérios que nos recordam outros tempos de sombras, dúvidas e medos. À luz da fogueira nocturna, entre as labaredas ateadas para aquecer o trabalho da eira, o milho rei, parece mais brilhante que nunca. Encontrá-lo, dizem os velhos, é sinal de boa sorte. Mas, o trabalho é árduo e ainda agora se iniciou. Noite dentro, as canas acamadas na eira, são desfolhadas revelando o trabalho de um ano. Espigas douradas, doces e de bom tamanho trazem a fortuna dos homens. Espigas que os espigueiros, em breve, acolherão.
Nacos de pão, carne do fumeiro, vinho da casa, espesso e sequioso, e a espiga doce e sumarenta alimentam o estômago de um trabalho que se faz festivo e que, só termina, quando a eira é toda ela pedra e não mais cana.
Regressar a casa, no torpor do vinho e dos cheiros do fumo e da cacimba nocturna, depois de tão árdua jorna, transporta-nos a esse passado recente de faunos e feiticeiras escondidos no véu da noite. E ali acreditamos nos ditos antigos de reis sarracenos, moiras encantadas e bestas do inferno.
Quando os primeiros dias de Outono regressam, ecos dessas noites ressoam em mim e, na hora da loba, a antiga magia dos homens ainda é vislumbrada.

September 18, 2008

"Shane! Shane! Come back!" (Shane, 1953, George Stevens)
As palavras de Joey ecoam nos meus tímpanos ainda hoje, enquanto Shane se afasta no horizonte, quem sabe, para morrer ou nessa eterna demanda de Dom Quixote reinventado.
A alguns, tudo neste mundo lhes é dado a escolher, menos o poder de controlar o seu coração.
Desengane-se o louco que assume a luxúria ou o poeta que invoca a musa.
Pertencem ao vento, à espuma do mar, ao sussurro das árvores, ao silêncio da montanha.
Ouvem mas não entendem as palavras do homem.
Sons guturais de uma criatura incivilizada.

Art by Hugo Pratt

September 15, 2008



Dave Douglas Quintet
Blues to Steve Lacy

De Madonna?! Nada de muito relevante a apontar. Um caso de estudo, para os especialistas de marketing e imagem. Pela capacidade de se reinventar, de transformar e de reusar conceitos, técnicas, imagens, ideias, pressupostos, preconceitos...
E quanto ao resto?!! Quanto ao resto...
É melhor deixarmos a questão por aqui, pois esta galáxia não é a minha e já tive a minha dose de ET por hoje...
E, no entanto... não consigo deixar de observar o extraordinário destaque que lhe foi dado pelos principais meios de comunicação..
Alguns públicos...
Se os accionistas de uma estação privada de televisão podem, em teoria (ou na prática...), dançar nus no pequeno ecrã...
Parece-me extraordinário que o mesmo se faça com meios públicos.
Certo. Concordo. É notícia.
Mas num contexto temporal delimitado e com um enquadramento próprio.
Mais do que isso, é publicidade grátis que a meu ver, se se deseja, que se pague.
Agora...o que estranho, estranho mesmo?
É esta forma de fazer e dar notícias.
Afinal...
No cantinho à beira mar plantado, eu vejo hoje algo que já não via há muito tempo...
Manuais escolares vendidos a prestações.
Gentes com dois e três empregos.
Pequenos negócios a fechar todos os dias.
Prateleiras de hipermercado, em fim de mês, cheias.
Sim. Sim.
Depressivo. Depressivo.
...
E sem mundial ou europeu...Só nos salva a Madonna!
Pois sim, avestruz!

September 09, 2008

Ainda trago em mim o seu cheiro.
Uma mistura de odores que me faz ...sorrir...
Mas ele ...ele quase nunca sorri.
Olha-me apenas seriamente, com os seus olhos negros, como se quisesse abarcar de uma só vez todos os mistérios do mundo.
No velhinho CD player. Cannonball. Cannonball Adderley. Poor Butterfly.
Agarro-o. Bem junto a mim ...e bailo, assim ... descalça ...
Pela primeira vez, creio, descubro-lhe um sorriso rasgado.
Ela entra.
Reprimenda na certa. Não gosta que o embalem. Distraí-me.
Mas não resiste aos vagidos de alegria do filho. Pega-lhe e embala-o um pouco, ao sabor da música.
Se depender de mim...
Aos três assobiará Chet e aos dez Coltrane & Davis...
E quando a idade da tortura chegar...hei-de mostrar-lhe Brötzmann e conhecerá o sabor da rebeldia...
Se depender de mim...
Sim.

September 07, 2008

'Round Midnight
Thelonious Monk Quartet

Bobby MCFerrin & Jorane

"Ó Poesia sonhei que fosses tudo
E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada."

by Sophia de Mello Breyner Andresen

August 24, 2008

O vento regressou. Por fim.
Na aurora dos dias, a brisa instalou-se e sopra já.
Ao entardecer, a espuma branca das vagas, como flocos de gelo, é lançada no vazio.
As gotas de água que me percorrem o corpo, solidificam em mim. Cristais que sacudo.
Por estas horas, tenho frio.
Um arrepio percorre-me.
Visto-me molhada e fico assim, a pingar.
Os elementos degladiam-se. Assisto.
Amanhã regressarei.
Regresso sempre.

August 21, 2008

Train Of Thought - Sebastian Noelle Quintet

Por estes dias dediquei-me a um exercício que me foi proposto faz tempo.
Identificar, de entre os meus cds, os 10 de que mais gosto.
Um observador atento dirá que fiz batota - creio que com razão - mas é uma primeira aproximação que considero louvável dado o esforço que implicou:

John Coltrane, My Favorite Things [61]
Miles Davis and Gil Evans, The Complete Columbia Studio Recordings [57-68]
Eric Dolphy, Out to Lunch [64]
Joe Lovano, From the Soul [91]
Oscar Peterson, Night Train [62]
Thelonious Monk Quartet, Misterioso [58]
Gerry Mulligan, Re-Birth Of The Cool [92]
Esbjorn Svensson Trio, Viaticum [05]
Chet Baker & Paul Bley, Diane [85]
Charlie Parker, Complete Jazz at Massey Hall [53]

August 20, 2008


Os ares portugueses são extraordinários!
Nunca hei-de conseguir perceber como é possível que tanto carro venha de fábrica com os indicadores luminosos de mudança de direcção estragados!
Tenho até aconselhado os donos a mandarem-nos verificar!
A sério!
Aborreço-me. Confesso.
Regressei ao ginásio. Não ao mesmo. A outro.
O corpo ainda me dói. Esqueceu-se. Tem que reaprender, relembrar.
É uma questão de disciplina. Há que insistir.
A seu tempo o cachorro pavloviano responderá e as dores irão desaparecer.
Mesmo assim aborreço-me.
O meu célebro inquieta-se. A minha vida profissional não o nutre criativamente. Entedeia-se.
Grafite. Jazz. Lente. Aparo. Arte.
A. gostaria de me ver regressar ao carvão e à sanguínea. Às cores. Aos desafios dos corpos nus. À captura dos risos e choros alheios.
Mas por ora, falo-ei apenas para mim. Decidi.
Jazz é ar que se respira. Forma de amar. Vírus que se entranha em nós.
Resta-me a lente, o aparo e a arte.
E uma decisão difícil até fim de Setembro.
Os mestres de outrora escaceiam...


August 18, 2008

Alice in Dixieland

I've found a new baby

August 17, 2008

July 30, 2008

Tigela. Leite morno. Sob a sua supervisão atenta, deixo cair vagarosamente, no líquido, a farinha de um amarelo esbatido. Mexer. É preciso mexer. Tem os braços cruzados sobre o peito. Ar de reprovação estampado no rosto. Condescendeu em partilhar comigo o seu pequeno almoço mas não lhe parece bem, não lhe parece bem! O papá e a mamã não comem da minha papa! Não és muito velha para comer papa?
Não cumpro uma disciplina de alimentação exemplar. É um facto. Se respeito escrupulosamente o ritual de pequeno-almoçar e almoçar, distraio-me frequentemente com as restantes refeições e não é inédito descobrir ao fim de algumas horas que me esqueci de uma delas...
Mas, o facto, é que não pratico restrições alimentares de qualquer carácter. Apenas as que resultam do acto de não gostar, de não suportar determinados aimentos. E os quilinhos a mais que ganhei após cancelar o ginásio, são apenas quilinhos a mais resultantes de uma alimentação adequada a prática desportiva. Terei que ajustar a minha alimentação a uma vida mais sedentária ou encontrar um ginásio que melhor satisfaça as minhas necessidades.
Não deixa de me admirar, contudo, o número de seres que me rodeiam que suprimem sistematicamente da sua alimentação alguns géneros alimentares. Pequeno almoçar com a minha voluntariosa sobrinha, roubar-lhe umas gramas de farinha cerelac e arreliá-la, enquanto o faço, é um prazer que não troco pela gramas que posso não ganhar. E quem comer a papa toda ainda pode passear o cão...Nah...Não troco isto por nada...
Essas tuas actividades lúdicas engordam, engordam, engordam....
Sim, sim...queijinhos frescos magros, yogurtes magros e maçãs, muitas, muitas maçãs...
No entanto, se os presentear pontualmente com um fabuloso bolo de chocolate, escandalosamente doce, a pingar chocolate quente...são os primeiros a lançar-se num festim alimentar que até a mim me deixa estarrecida.
E, quando a faixa etária a que me refiro, tem a seu cuidado miúdos e graúdos,...pergunto-me que mensagem andamos nós a passar...
Sniff...Não resisti à piadinha...

July 29, 2008

Leio compulsivamente como a pastilha que se impõe mastigar, mastigar, mastigar...Outras vezes. Como o café aromático. Com vagar e precisão. Em mim, pouco é imediato. Tudo sedimenta. Tudo ganha as cores e os aromas dos dias que se somam. Cresci assim. Ou talvez, seja esse o ciclo de Gaea. Apenas isso. E, por esses dias de banhos de sol e água fresca, acompanhou-me Disgrace. Dele diz-se que é violento, profundamente violento. Dele apenas digo que é dos mais belos livros que já li. Sem ilusões. Sem desculpas. E, talvez também, sem palavras. Porque, por vezes, somos apenas o cão que dorme...ou que é posto a dormir...
Disgrace by J.M.Coetzee
Winner of the 1999 Booker prize

July 28, 2008

Amy Winehouse

You Know I'm No Good

"Senhor que estás na feira,
Ajude o cigano
Compre uma calcinha de ganga!
Bom preço freguês!
É Doce Cabana verdadeira.
Dái-nos um plasminha pra nosso filhinhos.
Não nos tireis o Rendimento Mínimo
Estendei a mão que leio a sina
Livra-nos da Polícia Municipal e ASAE
Amén." from um blog perto de si

O que me aborreceu mesmo, mesmo, mesmo...é que partiram o LCD e a Playstation ao rapaz!
O próximo rendimento mínimo não paga isto!
Tenham dó!

July 23, 2008

The Chance to Love Everything

All summer I made friends
with the creatures nearby ---
they flowed through the fields
and under the tent walls,
or padded through the door,
grinning through their many teeth,
looking for seeds,
suet, sugar; muttering and humming,
opening the breadbox, happiest when
there was milk and music. But once
in the night I heard a sound
outside the door, the canvas
bulged slightly ---something
was pressing inward at eye level.
I watched, trembling, sure I had heard
the click of claws, the smack of lips
outside my gauzy house ---
I imagined the red eyes,
the broad tongue, the enormous lap.
Would it be friendly too?
Fear defeated me. And yet,
not in faith and not in madness
but with the courage I thought
my dream deserved,
I stepped outside. It was gone.
Then I whirled at the sound of some
shambling tonnage.
Did I see a black haunch slipping
back through the trees? Did I see
the moonlight shining on it?
Did I actually reach out my arms
toward it, toward paradise falling, like
the fading of the dearest, wildest hope ---
the dark heart of the story that is all
the reason for its telling?

By Mary Oliver

July 21, 2008

July 20, 2008

Billie Holiday - Strange Fruit


Hoje acordei com vontade de ver o Douro. A luz de fim de tarde é mágica. E assim me fiz ao caminho.
Amanhã espera-me um almoço em Lagos. E, certamente, irei.
Porque Portugal é isso. Um pequeno país facilmente conquistado de lado a lado.
E, no entanto, ... não deixa de me espantar como num tão pequeno país as assimetrias são tão extremas. Conheço bem este país e as suas gentes. Os seus modos. As suas vidas. As suas dores. Lá para as terras do meio, os doutores ainda são os doutores...
Há que ter respeito rapaz. Tira o boné, rapaz! Não vês que é o Sr. Doutor!
Quer o emprego menina! Sabe muito bem o que tem que fazer. Pois não é verdade?!
Vá lá homem! Não vê que lhe estou a dar uma oportunidade de futuro! Esse malandro preciso é de trabalhar não de ir à escola! E sempre é mais um para ajudar lá em casa. Não acha homem?
O nível de exigência dos exames nacionais desceu.
Se tiverdes uma dúvida que seja, testai-vos. Caneta em riste e um muito suave mar de perguntas a percorrer. Falaremos depois da prova feita.
Não me deveria preocupar, pois não? Os putos andam felizes, os pais também. Este ano os miúdos entram todos para a Faculdade. Qual é o problema?
Os meninos das particulares? O cidadão comum daria talvez uma risadinha sardónica...

Mas, de facto, não me preocupam as respostas que dão e, tão somente, as perguntas que não sabem ou sequer imaginam fazer. O homem que não se questiona segue o rebanho, não porque o queira mas porque não se imagina de outra forma. E quando isso acontece ficamos “muitos” muito mais pobres.

July 16, 2008

22 Horas. O telemóvel toca. Número privado.
Às 24...ainda toca. Haja paciência! Atendo. Sei ao que vou.
"Boa Noite. Passe-me ao seu coordenador de equipa pf!". Silêncio.
Deixo a reclamação. Não voltam a contactar-me.
Se o fizerem, existem outros canais. E eu dou-me ao trabalho, sim.
As minhas visitas ocasionais de pequeno tamanho, a esta hora dormem.
Só quem nunca adormeceu uma criança, pode ligeiramente justificar estas campanhas invasivas.
Por isso, por aqui, a televisão fica repentinamente muda durante a apresentação dos comerciais.
Uso e abuso de um pequeno botãozinho, designado "desligar", para silenciar telemóveis, telefones, pdas e produtos afim.
E o meu gestor de clientes deve certamente malfadar a sua sorte.
Recuso-me terminantemente a atendê-lo sem marcação prévia.
Creio, que os meus brandos costumes devo tê-los perdido algures, entre Lisboa e outra qualquer parte do mundo.
Porque, de todos nós, acho que, resmungamos demais e reclamamos de menos.

July 15, 2008

Há dias em que sinto em mim a idade da terra. Imensa. Antiga. Cansada.
E, no entanto, outros dias há em que apenas vive em mim a criança que fui. Os mesmos olhos. O mesmo rosto. As mesmas mãos.
Quase. Quase.
Aos dez não queria crescer...tomar banho também não. Consta.
Aos vinte já tinha lido todos os livros que devia...e os outros também.
(Ainda hoje...assim como quem não quer a coisa, mas querendo, lá vou trazendo um livrito ou outro da biblioteca familiar...Sim, sim, sou eu...)
Aos trinta descobri que esta coisa de amadurecer era bem mais complicada do que inicialmente previra.
Hoje?
Digo não, mais vezes. Digo não gosto, não quero. Não vou por aí.
Já não tenho todo o tempo do mundo.
Tenho menos ilusões. Continuo a ter sonhos.
Sem eles não teria feito metade do que fiz.
Sem eles não teria sido nem metade do que sou.
E, apesar do caminho feito, a criança que ali ontem vi descalça ainda reconheceria a mulher que hoje aqui está...
E, sim, isso para mim é muito...

July 14, 2008

Amanheço cedo. Sempre. O frio cortante da manhã que me obriga a aconchegar-me melhor. Os fios de luz deitados no meu cobertor de lã. A claridade que se intensifica. O dia que se adivinha.
Gosto de espreitar o céu, ali deitada. Às vezes, vejo a estrela da manhã. Pequeno, grande planeta.
Entre esse raiar da aurora e o espreguiçar da manhã, o meu espírito cai num estado contemplativo de quem já viu o orvalho das folhas, conhece o cheiro das árvores madrugadeiras e o som murmurante da água nos canais. Talvez por isso ame o vento. Vento que me traz o toque das coisas.
Um minuto depois, o momento perde-se. Regresso a um mundo de passos rápidos. De despertares ruídosos. De crises matinais, de choros e birras. De pressas lentas. De gestos mecânicos e contidos. De sentidos perdidos. E nada mais é sonho...

June 30, 2008

"...em certo nível, permanecemos órfãos para toda a vida; olhar por crianças é uma maneira de olharmos por nós próprios."
in Cães pretos
by Ian McEwan

June 29, 2008

Gerry Mulligan - Out Back Of The Barn

June 28, 2008

Faz tempo já que coloquei um counter no Anonyma. Um desses utilitários que abundam por aí e nos permitem manter um registo do número de visitas diárias. Na altura pareceu-me inverosímil que alguém se entretesse a ler as minhas divagações ocasionais. Nunca me ocorrera de facto a possibilidade. Apenas isso. Colocar o counter foi uma concessão à minha incredulidade. Feito.
Em todo o caso, por vezes, questiono-me o que poderá motivar a curiosidade de outrem...Esqueço-me de responder aos comentários que me colocam, nem sempre devolvo visitas de cortesia, esqueço-me de responder aos emails que me enviam e, pior, às vezes, quando respondo deixo o meu estado humoral levar a melhor....
Segundo dizem, esqueço-me frequentemente do código de delicadeza da Blogosphera. A mais pura das verdades. Creio.
Criei o Anonyma on a day of wind and rain. Anonyma porque, por um dia apenas, não seria belo que nos pudessem ver despidos de todos esses rótulos que vamos arrecadando nas arenas que frequentamos? Nós, apenas nós. A alma do macaco nu...
Sim, coloquei um counter. E, nada mais. Não sei de onde vêm, para onde vão ou onde estão. Não conheço esses rótulos brancos, bordados a carmin, com uma palavra no meio que vos subjugam ou elevam. Eles são o reflexo no espelho, não a vossa humanidade, e decididamente não me interessam.


(Art by Mattias Adolfsson)

June 27, 2008

The Piano a short film by Aidan Gibbons
Comptine d'un autre été l'apres midi composed by Yann Tiersen

Estive ausente deste tempo e espaço. A bola de cristal que habitamos manteve a sua rotação, alheia a intempéries ou bonanças. Alheia ao custo dos combustíveis e às margens fabulosas das organizações empresariais. Alheia à sorte de uma selecção que chora o seu triste fado, em vez de elogiar o seu adversário, e de se preparar para fazer melhor. Alheia à arrogância dos políticos que insistem em salvar um nado morto. Não ver, não ouvir, não falar. Alheia à descredibilização dos exames nacionais. Vendo bem, o país não tem recursos para suportar estes alunos que ficam para trás...Alheia à mediocridade, à rapacidade...


16 de Abril 1964 - 14 de Junho 2008 - Esbjörn Svensson

Pianista de Jazz cujo nome deu origem aos Esbjörn Svensson Trio ou E.S.T. como é vulgar designá-los. Ferido num acidente de mergulho não foi possível reanimá-lo durante o transporte para o hospital.
Leucocyte. O seu 12º album será lançado em Setembro.
No topo da minha lista de compras...
Tenho todos os seus albuns. O que mais amo? Viaticum.
Mas como maus albuns é algo que não têm, deixo-vos com From Gagarin´s Point Of View do album From Gagarin´s Point Of View de 1999.
Melhora certamente o meu humor e talvez vos adoce o fim de semana...
;)

June 13, 2008

"Je suis un acrobate de la forme, créateur de formes, joueur avec les formes.
Les formes, moyen d'exprimer toute l'émotion plastique.
La forme, expression et style de la pensée."
By Le Corbusier

De 19/05 a 17/08 2008, no CCB - Museu Colecção Berardo, está patente a exposição "Le Corbusier - Arte da Arquitectura". Organizada segundo três temas chave, Contextos, Privacidade e Publicidade e Arte Construída, a exposição permite uma introdução à obra de Le Corbusier e ao entendimento de uma obra feita de cumplicidades, interações e pontes e não função de disciplinas estanques. Eu gostei. Muito.
Fica como sugestão de fim de semana.
Curiosamante, a entrada é gratuita.
Aproveitem.
(Art by Carlos)

June 12, 2008

Miles Davis

Human Nature

Há alguns anos tive um acidente. Aparentemente, o animal que dentro de mim habita, recusou-se a desistir.
Descobri, durante a recuperação, que perdera grande parte da recordação de afectos, de bençãos, de maldições que fazem parte dessa amálgama individual de factos e hitórias a que chamamos o passado do homem.
Creio ter chorado mas a lembrança desse tempo é também ela difusa e não pode ser tomada por certa...
Por estes dias, acordei madrugada fora. Uma dor de cabeça insana. Quando coloquei os pés no chão, um morteiro de sensações explodiu...e recuperei um muito pequeno fragmento desse passado meu que se esvai entre os dedos.
Os que me amam, dizem-me que não faz mal, que talvez amanhã me recorde. Mas nos olhos de alguns eu vejo a certeza de tempos em que muito me deram e dos quais nada sei. Estão velhos e cansados. Creio que perderam-se de mim e eu deles e talvez já não haja tempo...
Temo que o fragmento de vida que vi não seja mais pertença minha.
E creio que mesmo que recupere todos esses outros fragmentos... vou vê-los sempre como corpos estranhos, como vivências de outrém...
Sei apenas que no caminho das pedras, o que está atrás é névoa e o que está à frente incerteza.
E não sei porquê mas, hoje, isso preocupa-me bem menos do que ontem...

June 11, 2008

June 04, 2008

Amy Winehouse - Will You Still Love Me Tomorrow

Cause she's great and this song is absolutely fab!


Fui almoçar fora.
Tenho por opinião de que o pequeno intervalo, que medeia entre a manhã e a tarde, deve ser usado para degustar lentamente todas as pequenas ocorrências desses sessenta minutos. E não para deglutir rapidamente o repasto do dia e fumar apressadamente um cigarro com um cafézinho em cima...
Almocei sozinha. Almoçar com os colegas tem, por vezes, essa particularidade de transformar um espaço de ociosidade num prolongamento da actividade profissional.
Uma actividade profissional que consume de mim mais do que seria razoável ou desejável. Creio. Estes momentos são pois pequenas e preciosas pausas revigorantes.
Na mesa do lado um indivíduo de cerca de trinta e cinco anos falava ao telefone. Boca cheia. Boca aberta. O que me impressionou francamente – e, diga-se de passagem que, não tenho por hábito tomar nota das conversas que não são minhas mas, verificada a volumetria, creio que até na cozinha do estabelecimento a mesma seria audível – foi de que, o que estava a dizer, era um segredo inconfessável de uma terceira pessoa. Obviamente, não presente. O seu interlocutor deveria pois manter o maior sigilo e não confidenciar tamanha enormidade a qualquer um.
A mim, ao empregado de mesa, ao empregado de balcão, a um ou dois clientes e ao pessoal de cozinha, estou em crer, deveria ter pedido o mesmo.
Tenho poucos amigos. Pouquinhos mesmo. Mas os que tenho, tenho com eles talvez essa relação desabrida que tudo lhes permito dizer, a tudo se permitem ouvir e a muito nos permitimos calar.
E é talvez nesse espaço de ruidoso silêncio, que reside a verdadeira natureza da nossa amizade.
E, por isso, estranho...estranho mesmo...

June 02, 2008

Gerry Mulligan and Antonio Carlos Jobim

Creio que se pudesse, na entrada de casa, o meu cão escreveria "- Eu não mordo, a minha dona, sim!".
Não deixa de ser uma constatação aborrecida vinda de uma criatura cujos melhores momentos incluem fugir com o meu polar preferido, roubar-me o quadradinho de chocolate que, religosamente diga-se, guardo para o café da noite, ou achar que banheira cheia de água e espuma ...são para o seu banho relaxante...
(Com o devido distanciamente, terá talvez a sua piada...talvez...)
No entanto, por alguma razão oculta – ocultíssima mesmo – parece achar que as tarefas de impôr respeito estão mais nas minhas mãos do que nas suas patas...
É vê-lo a dar-me focinhadas e a empurrar-me quando lhe parece que devo fazer prevalecer um ponto de vista diferente...
E quando o ponto de vista diferente implica...
...separar dois campeões olímpicos do pontapé e do soco...
...descobrir a velocidade a que uma criança pequena é capaz de projectar, na parede da cozinha, a mistela verde e cor de laranja, preparada – com tanto amor e carinho... e tão pouco salzinho....
...mudar a fralda a um fedelho que resolveu adoptar uma atitude experimentalista face ao conteúdo da mesma...
Gostava tanto de ser cão...

May 31, 2008

May 30, 2008

Ute Lemper - Passionate Fight

Rolo a cigarrilha entre os dedos, num gesto mecânico, que só o olhar atento de outros revela.
O vizinho observa-me na eterna curiosidade do animal social.
Engole em seco. É transparente. Sente-o, não o sabe.
Perco um minuto a revê-lo.
Perde-se entre duas crianças que o disputam como o berlinde vidrado dos cereais da manhã.
Comprime os maxilares num misto de irritação e frustação.
A esposa chama-o e tenta acompanhá-la. Apanha as compras do supermercado, quase esquecidas. Uma das crianças ao ombro. A outra insiste em permanecer sentada nos seus pés. E, assim, caminha.
Conheço o seu destino.
Café da esquina. Aí permanecerá, alheado de tudo o que o rodeia. Os filhos gritando.
"São crianças, deixe estar!"
Mas quando estiver quase, quase, a atingir o último degrau...
"Que crianças tão mal educadas! Estes pais! No meu tempo..."
Rolo a cigarrilha entre os dedos.
O inferno são os outros JPS?
Não. Não creio.
O inferno é o jardinzinho privado que mantemos nas nossas costas apinhado de falta de bom senso...


Bom Fim de Semana

May 27, 2008

Stan Getz- Autumn Leaves

Mais um dia cinzento. Apenas mais um.
Ontem, a chuva era forte. Gelada, quando a noite chegou.
Hoje, pequenas gotas caíam gentilmente tornando a cidade um pouco mais escura, um pouco mais fria...
Em dias de sol, jovens inquietos engolem avidamente sandes triangulares de pão de forma.
Rúcula, maionese e carnes frias.
Toalha estendida na relva.
À vista dos veraneantes, roupa interior demodèe.
E um admirável tom de pele que se intensifica por gradações de rosa.
Gosto do Hyde. Daquele espaço imenso. Do verde. Dos esquilos....
Mas hoje não. Não há sol.
Apenas chuva.
E um tédio imenso...

Parece-me sempre, extraordinário, estas criaturas que se arrastam por corredores, portas de embarque, halls de entrada arrastando um T2, um T3 ou um T4, completo.
Sim, estou de mau humor. Mas já estou em casa. Passa.

May 21, 2008

Esbjörn Svensson Trio

When God Created The Coffeebreak (live)

Só podia. Certo?
;)

Amanhã acordarei em Paris, Nova Iorque, Toquio, São Petersburgo...
No porta moedas troco as libras por rublos e prossigo viagem.
Apenas mais uma paragem, uma viagem, outra paragem, outra viagem...
Os cheiros dos aeroportos, estações de comboios, estações de metro, estações de autocarros, estações de táxi...
Estações. Permanência do efémero.
Usamos as palavras. Esquecemos as caçoadas que encerram.
As viagens têm esse dom. Viagens da mente pelos segredos das coisas.
Cheiros. Cores. Gentes. Pedras. Bichos.
Impaciência em chegar, em estar, em ficar.
Vontade de partir...

May 11, 2008


Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.
by Sophia de Mello Breyner Andresen

At Last
Etta James

May 09, 2008

John Coltrane with Eric Dolphy - My Favorite Things

Brevemente.
Numa repartição perto de si!