May 27, 2010
No próximo mês, a grande maioria de nós verá o seu rendimento mensal reduzido, em prol das medidas delineadas de combate ao défice excessivo. Adicionalmente, assistiremos a uma súbida gradual do custo de produtos e serviços e a uma redução sistemática dos benefícios fiscais. Quer isto dizer que a "gordurinha" dos reembolsos de irs, antes permitida a algumas famílias, pode reduzir-se significativamente com sérios impactos na economia doméstica e consequentes efeitos de escala para todos nós. Face ao nível de endividamente verificado e à (in)capacidade financeira do País, a situação não me parece de todo inesperada, embora entenda que a natureza do nosso endividamento, ao recair sobre produtos com uma maior resiliência e menor depreciação - maioritariamente de habitação - é garante de menor risco. Caberia talvez aos orgãos de comunicação social e à classe política prestar os devidos esclarecimentos, no sentido de evitar a inoperância e a inércia resultantes dos cenários de catástrofe largamente difundidos, mas talvez não se possa esperar de duas raças em vias de extinção semelhante clarividência. O certo é que nestas coisas, eu como muitos de vós, e muito contrariamente a essa imagem poética de um país com um olhar melancólico de si mesmo, entende que se há trabalho a fazer, então que se trabalhe. No entanto, observo com cepticismo este súbito ataque de virtuosismo do filho mal comportado e revisito com temor as palavras de Saldanha Sanches: "Em qualquer caso, a justiça fiscal é uma questão que não se coloca só do lado da receita pública. Receita e despesa são o verso e o anverso do problema da justiça fiscal. É também muito provável que o esforço financeiro venha a atingir a segurança social, as pensões, as reformas. Ora, de nada serve aumentar o IVA, ou tributar mais-valias, se o Estado continua a esbanjar recursos. No esbanjadouro são muito claros dois tipos de papa-reformas: as obras públicas desnecessárias e os papa-reformas em sentido próprio. " (in Os papa-reformas, por J.L.Saldanha Sanches em 20 de Maio de 2010 ) e se tivermos em consideração que: "Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética. " (in Os papa-reformas, por J.L.Saldanha Sanches em 20 de Maio de 2010 ) e que os investimentos em Educação, em Justiça e Inovação serão quase inexistentes, receio que o caminho seja longo, muito longo!May 24, 2010

Hoje, bem cedo, entreguei a delicada criatura que me transposta a devidos cuidados. Vejo-me assim na contingência de recuperar um antigo hábito de caminhadas e transbordo diários, opção da qual não advém mal maior, até porque com os dias maiores e mais suaves, estes passeios revelam-se especialmente prazenteiros. E, depois, mesmo que São Pedro, opte por um ou outro duche, mais não será do que um revivalismo de outras épocas. Obviamente, o tom jocoso impera devido à não permanência da situação, fosse a mesma efectiva e a minha disposição seria bem diferente. Em todo o caso, não deixo de sentir uma certa arrelia face às circunstâncias.
A minha primeira viatura custou-me uma pequena grande quantia, financiada com os tostões ganhos num part-time que me ocupava todas as horas disponíveis, entre aulas e estudo. Quinhentos paus (se é que alguém ainda se lembra do que isso é!) de gasolina custeavam as voltinhas da semana e, tão somente quando os paus já não esticavam, andava-se a pé. Aos dias de hoje, a minha bela bomba estaria certamente num desses cemitérios, que se amontoam um pouco por todo o jardim à beira-mar remediado, para canibalização de chapa e de peças.
O certo é que duas pancadas, capô levantado, uma cotovelada certeira, porta direita traseira aberta, bico do sapato em riste, logo ali em cima do acelerador, pegou(!), dois punhos fechados no tablier, luz de aviso desligada... E, no entanto, apesar da "mecânica procedimental" abundante, esta rude criatura jamais me deixou apeada ou infeliz e, quando por fim a vendi, confesso a tristeza com que o fiz.
Agora...estas "coisas modernas" tiram-me do sério! Desligam-se ao menor sinal de impropério ou vernáculo, zumbem-nos nos ouvidos até à exaustão, por cada minúscula - assim pequenina, pequenina, ínfima mesmo - atrocidade e deixam-nos apeados por dá cá aquela palha com a indicação de que necessitam de um "reboot"(?!!!)!
Ai as saudades que eu tenho do meu lindo, lindo, chaço!
A minha primeira viatura custou-me uma pequena grande quantia, financiada com os tostões ganhos num part-time que me ocupava todas as horas disponíveis, entre aulas e estudo. Quinhentos paus (se é que alguém ainda se lembra do que isso é!) de gasolina custeavam as voltinhas da semana e, tão somente quando os paus já não esticavam, andava-se a pé. Aos dias de hoje, a minha bela bomba estaria certamente num desses cemitérios, que se amontoam um pouco por todo o jardim à beira-mar remediado, para canibalização de chapa e de peças.
O certo é que duas pancadas, capô levantado, uma cotovelada certeira, porta direita traseira aberta, bico do sapato em riste, logo ali em cima do acelerador, pegou(!), dois punhos fechados no tablier, luz de aviso desligada... E, no entanto, apesar da "mecânica procedimental" abundante, esta rude criatura jamais me deixou apeada ou infeliz e, quando por fim a vendi, confesso a tristeza com que o fiz.
Agora...estas "coisas modernas" tiram-me do sério! Desligam-se ao menor sinal de impropério ou vernáculo, zumbem-nos nos ouvidos até à exaustão, por cada minúscula - assim pequenina, pequenina, ínfima mesmo - atrocidade e deixam-nos apeados por dá cá aquela palha com a indicação de que necessitam de um "reboot"(?!!!)!
Ai as saudades que eu tenho do meu lindo, lindo, chaço!
May 23, 2010
Elevation of Love
Esbjorn Svensson Trio
[http://www.youtube.com/watch?v=dUFP3UCAQGg]
May 13, 2010
If I were blue
Patricia Barber
[http://www.youtube.com/watch?v=_i6LQBhOxg8]

As lebres espraiam-se pelos caminhos incertos. São jovens, nasceram talvez esta Primavera. Experimentarão algumas agruras até perderem o pêlo macio e se transformarem, nos magníficos animais de pêlo hirsuto, que os cães perseguem. A reserva está deserta de gentes, recolhidas ao calor das brasas e aos afazeres de fim de dia. Os campos agora adormecidos, exibem as cores de Papa Pissarro, matizes efémeros de amarelo vivo e lilás, pontos cintilantes de um imenso tapete verde, onde imponentes sombras alcançam o céu e a plenitude. Ainda está frio e a brisa que nasce da água relembra-nos porque é aquele pasto de lobos e não de cães. Chego a mim o casaco quente, na vã tentativa de deter um frio que se entranha. Em breve, em breve, a civilização...ou talvez, não...
April 11, 2010

Reflectimo-nos nos outros como as velhas árvores da margem do rio cujo vislumbre contemplamos na água que corre. É-nos inato esse exercício desprovido de distanciamento, mas semicerrar os olhos clareando a imagem reflectida de nós, e que se esfuma a cada instante, delimita-nos e confere-nos a possibilidade de ver bem mais além.
April 05, 2010
One More Kiss, Dear
Blade Runner Sound Track
by Vangelis and Don Percival
Blade Runner Sound Track
by Vangelis and Don Percival

Os vestígios de folhas arrancadas são visíveis na lombada escurecida pelo tempo e pelas andanças constantes. A areia, o sol, a água salgada e a saliva do grandalhão fizeram o resto, tornando-o num registo de palavras soltas que um elástico negro insiste em manter contidas. As palavras têm o peso ou a importância que as deixamos ter. Se as lançarmos no vazio e as deixarmos tombar por si, por vezes, desfazem-se em mil grãos como a areia da praia. Outras vezes, revoltam-se, exaurindo-nos sem dó ou piedade contra as arribas batidas na preia-mar e cabe-nos a nós segurá-las com a firmeza devida.
Tenho escrito. Não aqui realmente, mas nesse caderno preto que perspira da soma dos meus dias e cujas páginas arranco, porque algumas viagens em nós não se desejam contemplativas. Observo as cores que se misturam e que uso sem desculpa ou pejo. O passado enterrou-se numa quarta-feira de cinzas. O presente é agora. ...e o futuro? Vive-se ainda hoje porque o amanhã é incerto.
Não sou tudo o que poderia ser, é certo, mas diabos me levem se não o tento ainda!
February 08, 2010
Autumn Leaves
Wynton Marsalis & Sarah Vaughan
[http://www.youtube.com/watch?v=KZbI2VZF9K8]

Um pavilhão branco numa envolvência verde atapetada de pequenas flores lilases. O turquesa anisado dos pavões e o seu grito contínuo numa tarde de sábado. Quinze mesas em tons pastel, quinze ovos em tons pastel e pequenas figuras, de ébano e alvas, que se contrapõem em interações sociais, configuradas usos e costumes, pelas vicissitudes da ocorrência e não pela inocência da natureza. Simples são as figuras. Simples as mesas que as suportam. Simples as palavras dedilhadas, mas simples não foram as emoções que me habitaram bem depois de uma simples visita...
[Debret by Vasco Araújo]
Pavilhão Branco do Museu da Cidade
15 de Janeiro a 7 de Março 2010
January 31, 2010
Sweet Georgia Brown & Tea for Two
Anita O'Day
[http://www.youtube.com/watch?v=agp2on83hrA]
C. verificou se a água estava quente, após o que depositou a pequena criança no interior da banheira. Não deixando nunca de lhe deitar um olho, lançou na água um pato de borracha amarelo, uma tartaruga verde de plástico e um jacaré azul bebé. Depois, enquanto a criança se distraía em cantilenas incompreensíveis, foi-lhe molhando o couro cabeludo que encharcou de champô e massajou suavemente. Percorrendo mentalmente a lista de recomendações da Senhora, prosseguiu com ouvidos, pescoço, cotovelos, joelhos até ter a certeza de a ter satisfeito por completo. Quando terminou, concedeu-se a uns minutos de brincadeira com a criança. Por fim, enrolou-a no enorme toalhão e aquietou-se com ela no regaço. A rotina repetia-se diariamente. A esta seguir-se-ia o jantar e a hora de deitar. Era preciso cumprir as indicações da Senhora.C. nunca gostara da escola e das tarefas diárias na quintinha, o vislumbre de outros mundos, outros saberes inquietara-a desde cedo e esta fora a oportunidade possível. Acumulava as aulas nocturnas com a tarefa de velar pelas endiabradas crianças que mimava até ao limite do seu ser.
Domingo de manhã. Uma tea light imaculada olhava para mim, uma apenas, no cesto nenhuma outra. Dez horas, Ikea e um mundo de criaturas arrastando os pais, os sogros, os filhos, os enteados, os amantes, os amigos...E, depois, um vagido quase inaudível de um recém nascido. Não mais do que uns dias. No corpo da mãe eram ainda visíveis os vestígios de um parto recente. Transportava a criança junto a si, enquanto o marido, à sua frente, desgastava-se em abrir caminho por um mar de gente àvida de promoções e descontos. Jovens e, no entanto, tão velhos...
Passaram já muitas gerações desde C., mas muitas teses depois, as famílias estão hoje bem mais depauperadas de afectos e de auxílios do que antes.
January 24, 2010
De novo a minha mão toma o peso da velha raqueta. O seu azul brilhante está agora um pouco mais baço, as cordas gastas, o punho puído. No ar, dança já, a bola imaginário que o meu amigo de quatro patas parece adivinhar e seguir com o olhar. O gesto que se repete, o impacto que atinge o pulso e se propaga ao antebraço, uma antiga lesão que parece retinir por todo o corpo e um eco seco no campo vermelho batido pelo sol da manhã. Depois, a ilusão desfaz-se e é de novo a velha raqueta na minha mão. O grandalhão suspira. Outra bola que lhe perdi, pensará talvez.Não visito o velho campo faz tempo, derramando, por vezes, essa eternidade de décimos de segundos dados em trivialidades sem importância ou valor. Também nós nos facilitamos, é certo, mas hoje, em nome de uma vertigem, insisto.
January 18, 2010
Lush Life
Queen Latifah
[http://www.youtube.com/watch?v=VMoelYEqgYQ]
O rio quase gelou. Sobre a superfície luzidia, patos descalços nas pontas dos dedos. Aqui e ali, na representação chiaroscuro das árvores, moedas de água relembram uma força antiga. A neve solta, da véspera, despedaça-se sob os meus pés. Está frio. Está sempre frio. Sinto a pele do rosto a arder. Talvez, agora menos do que antes. Habituo-me, creio, e assim prossigo até onde os passos me levam. Hoje, a viagem é dentro de mim. A hora mudou. A fénix renasceu. A saber ainda que cores trará.
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