July 27, 2009

Não sou um bom garfo, na medida em que, o meu organismo prontamente se recusa a processar determinado tipo de alimentos. Resultado, talvez, de uma juventude inquieta e de uma idade adulta em que os meus espaços e tempos são, por demais, contaminados com urgências e importâncias profissionais de seriedade ambíguas. O facto é que independentemente das limitações que tolhem alguns dos meus movimentos, as conversas francas e fartas a uma mesa de refeições são, não só uma das mais belas memórias de um tempo ínfimo da minha meninice, como um prazer redescoberto, mas que exige de mim bem mais que simples habilidade. Substituir sabores, cores, aromas sem desvirtuar a arte de outros, mais do que um acto de criatividade duvidosa é uma tarefa espinhosa, por vezes, com resultados francamente inesperados...outras vezes, nem tanto!

Dissertação Culinária X

Numa língua de azeite, ao lume, depositar 2 a 3 chávenas de chá de arroz. Deixá-lo dourar um pouco, mexendo bem. Depois, cobri-lo com água. Temperar com sal e pimenta. Não deixar cozer de mais. Quando pronto, coá-lo e passar por água fria.
Numa panela deitar uma cebola com casca, piri-piri, e sal grosso. Deixar ferver. Colocar gambas para 3 a 4 pessoas. Algo entre 800g a 1kg, diria. 4 min e estão prontas. Descascar.
Cortar cebolinho e alho aromático, misturar com raspa de limão e pinhões. Juntar tomate de cacho, cortados aos cubos, o arroz e as gambas. Azeite, umas gotas de limão e um pouco mais de pimenta. Com cuidado, envolver todos os ingedientes.  
E depois...!!?
Frigorífico até os convivas chegarem.
E, se sobrou limão... é óptimo para limpar o recipiente da gambas e disfarçar o cheiro, antes dos primeiros curiosos nos entrarem cozinha dentro, inquirindo-nos sobre o que se come por aquelas beiras.
As gotas de limão mantêm a refeição fresca e divertido mesmo, é ter a cozinha toda arrumadinha e ver um ou dois de rabo para o ar a espreitar o forno, na tentativa vã de perceberem exactamente o que vão degustar!
Acompanha com algo fresco, boa companhia e o meu doce Chet, obviamente! 

July 23, 2009


Tenor Madness
Sonny Rollins
[
http://www.youtube.com/watch?v=S46dhVcYWpY]

A cada cordeiro de espuma branca, a linha de água recuou um pouco mais. A marcar essa fronteira invisível, entre a terra e o mar, despojos do oceano que coleccionei e depositei na toalha branca de algodão grosso. A outro ser caberia, depois, deleitar-se e espantar-se com os pequenos invólucros calcários rugosos e coloridos. Momentos do maravilhoso que acompanham todos os passos incertos da meninice cuidada, e que nos aquecem o coração, anos mais tarde, em dias de prolongada trovoada.
No corpo, sal, água e o creme branco, armadura de Verão, com que insisto em me vestir, cheiros de maresia e civilização que se misturavam numa troca de odores.
Nas semanas em que, a aurora e o pôr do sol, se tocam no meu horizonte de deveres, este deambular do espírito e do corpo facilita-me o descanso, que mais do que merecido, é exigido.
E depois do convite das águas, que melhor do que um pouco de Jazz na quentura apetecível da noite? 
É certo que, o som era doce, como chocolate quente em dia de ventania, e que de Francesco Cafiso esperaria mais, muito mais.
A criança que era, não será talvez ainda o homem que poderá ser, mas pouco estragaria tão prazenteiro dia.
E, já noite estrelada, o meu coração apenas vacilou, um pouco, perante uma plateia em que pobremente se falava português.

July 14, 2009

My Foolish Heart
Miroslav Vitous
[http://www.youtube.com/watch?v=L8rL5ML0fwU]

Habito por de dentro
das palavras

com tectos de saliva
e quartos grandes

na união total
e Humidade
do deslizar a vida
na garganta

habito as manhãs
a cor - o tempo
a curva adocicada da vontade

aquilo que se prende
e apreendo

aquilo que desfaço
e não disfarço

Depois a vastidão
o riso e o sossego

sossego sem ser paz
nem aventura

Respiro o que não tenho
nem viagem

habito o que descubro
e a cidade

O corpo
a revolta
a pele os membros

O ritual interno
e a ternura

E se as palavras tenho
como armas
moldando-as uma a uma
conscientemente
é de habitá-las hoje
que suponho não mais poder
usá-las conivente

Palavras by Maria Teresa Horta

July 12, 2009

Chick Corea, Bob Berg, Eddie Gomez, Steve Gadd 
Straight No Chaser
[http://www.youtube.com/watch?v=VjjkOQWJ2ug]


As luzes da cidade acenderam-se faz tempo. No céu um enorme queijo redondo mordiscado por um Pierrot inquieto. Cresce, cresce lua! Traz o mar às nossas praias de areia branca e macia. "A lua mente, criança! Cuida que a lua mente!" Palavras de outras gentes e outras terras que ecoam no silêncio da noite fustigada por vento bravio. Sim, a lua mente e o quarto quase prenhe que vislumbro numa noite raiada e escura, prenúncio de outros dias de sol, mais não é do que o quarto minguante que se anuncia.

July 07, 2009

 "Easy to Love"
Patricia Barber
[http://www.youtube.com/watch?v=41Of6sltTZY]

As caras fecham-se.
Os rostos contorcem-se.
Os sorrisos desaparecem.
Os aumentos foram diminutos.
Mas existiram! Insisto.
Indignam-se, ripostam-me que mais era devido, mais muito mais...
Sorrio.
Apenas isso.
E abandono-os numa inquietação surda que lhes consome o resto do dia.
Cedo tempo meu em horas sem fim.
Sim, em justeza, mais seria devido, mas recuso-me a deixar que o assunto me escureça o dia.
Não é uma cedência.
O assunto foi endereçado da forma que considerei apropriada, mas não vivo em redor do meu umbigo.
Vejo, observo, apreendo.
E, por agora, rejeito apenas que me acompanhe num dia de sol e vento em que o rio se encrespa em mil gotas e um passeio apetece.

July 01, 2009

Nas paredes pequenos demónios vermelho-amarelados dançam a música que a brisa da noite lhes traz. As velas, assim acesas, emanam um cheiro forte que se propaga pela casa. Não gosto dessa escuridão absoluta que afasta do céu a lua e aproxima das nossas crias antigas criaturas das trevas, mas este cintilar evoca a memória da lua cheia em mar de vento norte e aquece-me o coração. Hoje não chove, no Zen passa When It Rains. Memórias de uma praia de ondas soltas e bravas onde as gotas empapam os incautos, em dias de tempestade, e alguns se arrastam quebrados na areia da praia. Sangue e sal que se misturam e não se reconhecem, sentidos que latejam e mil dores que nos atormentam. Na vida como no mar, deixei que as ondas me escolhessem, deixei-me embalar, esqueci-me de mim e embati na areia. Hoje, no mar, aguardo pelo tubo perfeito, aquele que me acompanhe apenas e me devolva depois incólume. Na vida não há tubos perfeitos, mas ali naquela praia aprendi uma lição maior. Que quem ama, exige.