Rolo a cigarrilha entre os dedos, num gesto mecânico, que só o olhar atento de outros revela.O vizinho observa-me na eterna curiosidade do animal social.
Engole em seco. É transparente. Sente-o, não o sabe.
Perco um minuto a revê-lo.
Perde-se entre duas crianças que o disputam como o berlinde vidrado dos cereais da manhã.
Comprime os maxilares num misto de irritação e frustação.
A esposa chama-o e tenta acompanhá-la. Apanha as compras do supermercado, quase esquecidas. Uma das crianças ao ombro. A outra insiste em permanecer sentada nos seus pés. E, assim, caminha.
Conheço o seu destino.
Café da esquina. Aí permanecerá, alheado de tudo o que o rodeia. Os filhos gritando.
"São crianças, deixe estar!"
Mas quando estiver quase, quase, a atingir o último degrau...
"Que crianças tão mal educadas! Estes pais! No meu tempo..."
Rolo a cigarrilha entre os dedos.
O inferno são os outros JPS?
Não. Não creio.
O inferno é o jardinzinho privado que mantemos nas nossas costas apinhado de falta de bom senso...
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