June 12, 2008

Há alguns anos tive um acidente. Aparentemente, o animal que dentro de mim habita, recusou-se a desistir.
Descobri, durante a recuperação, que perdera grande parte da recordação de afectos, de bençãos, de maldições que fazem parte dessa amálgama individual de factos e hitórias a que chamamos o passado do homem.
Creio ter chorado mas a lembrança desse tempo é também ela difusa e não pode ser tomada por certa...
Por estes dias, acordei madrugada fora. Uma dor de cabeça insana. Quando coloquei os pés no chão, um morteiro de sensações explodiu...e recuperei um muito pequeno fragmento desse passado meu que se esvai entre os dedos.
Os que me amam, dizem-me que não faz mal, que talvez amanhã me recorde. Mas nos olhos de alguns eu vejo a certeza de tempos em que muito me deram e dos quais nada sei. Estão velhos e cansados. Creio que perderam-se de mim e eu deles e talvez já não haja tempo...
Temo que o fragmento de vida que vi não seja mais pertença minha.
E creio que mesmo que recupere todos esses outros fragmentos... vou vê-los sempre como corpos estranhos, como vivências de outrém...
Sei apenas que no caminho das pedras, o que está atrás é névoa e o que está à frente incerteza.
E não sei porquê mas, hoje, isso preocupa-me bem menos do que ontem...

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