Às quatro dezenas somou mais um ano. Carinhosamente, como se faz a um amigo querido, desejei-lhe um bom ano. Sorriu e indicou-me tratar-se de um assunto sensível. O filho já lhe ganha em altura. O buçozinho renitente transformou-se em barba feita. O pai apercebe-se agora que passaram já muitos dias desde a sua aurora. Vê o seu horizonte encurtar-se. A realidade tomou-o de sobressalto num dia de anos.Alguns dias depois, uma colega afunda a cabeça entre as mãos e confidencia-me baixinho que fez cinquenta anos. Sente-se deprimida. Apetece-lhe chorar.
É certo. Envelheci. Não tenho mais dez, vinte ou trinta anos. As rugas de expressão estão mais fundas. O meu corpo mudou. Mas eu, que não acredito na eternidade desse sentimento fortuito chamado felicidade, tenho tido os meus momentos. Hoje, muito mais do que antes. Não sei o que o futuro me reserva. Aos olhos da cigana as cartas nada revelam pois, do viajante, apenas se pode adivinhar o seu paradeiro e não o seu destino. Mas ainda me indigno, ainda discordo, ainda defendo, ainda acredito e talvez por isso o meu caminho não seja já só a réstia de um sonho...
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