January 31, 2010

C. verificou se a água estava quente, após o que depositou a pequena criança no interior da banheira. Não deixando nunca de lhe deitar um olho, lançou na água um pato de borracha amarelo, uma tartaruga verde de plástico e um jacaré azul bebé. Depois, enquanto a criança se distraía em cantilenas incompreensíveis, foi-lhe molhando o couro cabeludo que encharcou de champô e massajou suavemente. Percorrendo mentalmente a lista de recomendações da Senhora, prosseguiu com ouvidos, pescoço, cotovelos, joelhos até ter a certeza de a ter satisfeito por completo. Quando terminou, concedeu-se a uns minutos de brincadeira com a criança. Por fim, enrolou-a no enorme toalhão e aquietou-se com ela no regaço. A rotina repetia-se diariamente. A esta seguir-se-ia o jantar e a hora de deitar. Era preciso cumprir as indicações da Senhora.
C. nunca gostara da escola e das tarefas diárias na quintinha, o vislumbre de outros mundos, outros saberes inquietara-a desde cedo e esta fora a oportunidade possível. Acumulava as aulas nocturnas com a tarefa de velar pelas endiabradas crianças que mimava até ao limite do seu ser.
Domingo de manhã. Uma tea light imaculada olhava para mim, uma apenas, no cesto nenhuma outra. Dez horas, Ikea e um mundo de criaturas arrastando os pais, os sogros, os filhos, os enteados, os amantes, os amigos...E, depois, um vagido quase inaudível de um recém nascido. Não mais do que uns dias. No corpo da mãe eram ainda visíveis os vestígios de um parto recente. Transportava a criança junto a si, enquanto o marido, à sua frente, desgastava-se em abrir caminho por um mar de gente àvida de promoções e descontos. Jovens e, no entanto, tão velhos... 
Passaram já muitas gerações desde C., mas muitas teses depois, as famílias estão hoje bem mais depauperadas de afectos e de auxílios do que antes.

1 comment:

Rui said...

Hoje, a embalagem de champô tem impresso o boneco do momento e o cheiro da pastilha elástica.