As Sandálias do Pescador
A minha educação teve lugar num mundo profundamente católico e de fervor religioso.
Velhas senhoras habitavam os espaços de prece em que o cheiro a naftalina se misturava com o odor a humidade da talha dourada e a cera das velas em queima.
No inverno, o frio da pedra entranhava-se no corpo durante a homilia dificultando a concentração dos ouvintes que se entregavam a uma inquietação sem fim.
Um após o outro, fui cumprindo os cerimoniais que se impunham.
Alguma desconfiança grassava em mim mas com a minha costumeira mania de evitar conflitos, assim satisfazia outros quereres.
Certo dia em que me apressavam para a presença de um padre, por ocasião de um dos sacramentos, o meu cepticismo falou mais alto.
Após uma infindável lista de pecadilhos a que fui respondendo não, não e não, decidi esclarecer a criatura que perante mim se encontrava que até nem tinha muitas dúvidas quanto ao bom velho Deus mas que de facto tinha muitas e sérias dúvidas quanto à corja que habitava o templo e que me parecia que talvez fosse tempo de afastar novamente os vendilhões do templo.
Bom! A resposta não se fez esperar...
Vi-o ficar de todas as cores, as têmporas a latejar e gritava-me incessantemente que o que acabara de dizer era um avultadíssimo pecado que pagaria por certo com uma estada no inferno ou purgatório.
Expulsou-me com a incumbência de rezar dez mil preces a todos os santos e de afastar terminantemente do pensamento tais ignomínias.
Sentei-me por alguns minutos ainda atordoada pela investida e saí pouco depois.
A minha interacção com a Igreja Católica terminou aí.
Hoje, acho que me deu um conjunto de valores éticos e morais mas também continuo a achar que o templo está cheio de vendilhões e que as sandálias de Pedro nunca deveriam ter sido Prada.
Velhas senhoras habitavam os espaços de prece em que o cheiro a naftalina se misturava com o odor a humidade da talha dourada e a cera das velas em queima.
No inverno, o frio da pedra entranhava-se no corpo durante a homilia dificultando a concentração dos ouvintes que se entregavam a uma inquietação sem fim.
Um após o outro, fui cumprindo os cerimoniais que se impunham.
Alguma desconfiança grassava em mim mas com a minha costumeira mania de evitar conflitos, assim satisfazia outros quereres.
Certo dia em que me apressavam para a presença de um padre, por ocasião de um dos sacramentos, o meu cepticismo falou mais alto.
Após uma infindável lista de pecadilhos a que fui respondendo não, não e não, decidi esclarecer a criatura que perante mim se encontrava que até nem tinha muitas dúvidas quanto ao bom velho Deus mas que de facto tinha muitas e sérias dúvidas quanto à corja que habitava o templo e que me parecia que talvez fosse tempo de afastar novamente os vendilhões do templo.
Bom! A resposta não se fez esperar...
Vi-o ficar de todas as cores, as têmporas a latejar e gritava-me incessantemente que o que acabara de dizer era um avultadíssimo pecado que pagaria por certo com uma estada no inferno ou purgatório.
Expulsou-me com a incumbência de rezar dez mil preces a todos os santos e de afastar terminantemente do pensamento tais ignomínias.
Sentei-me por alguns minutos ainda atordoada pela investida e saí pouco depois.
A minha interacção com a Igreja Católica terminou aí.
Hoje, acho que me deu um conjunto de valores éticos e morais mas também continuo a achar que o templo está cheio de vendilhões e que as sandálias de Pedro nunca deveriam ter sido Prada.
(Photograph by James L. Stanfield; Vatican City)
1 comment:
Bom, e a roupa interior desses vendilhões institucionais da Igreja, é Calvin Klein.
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