
Na frescura da manhã avistavam-se idosos em marcha rápida e decidida. Gentes de outros usos e tempos, vivenciados na importância de se deitar o voto. Elas de carteira e saco de plástico apertado contra o sovaco, eles de boné ou chapéu bem enterrado na cabeça para que o frio ar matutino não os apanhasse desprevenidos nas enormes clareiras que lhes sulcam as fontes. Mochila às costas, bicicleta debaixo do ombro e uma camisola cor de rosa, linda, linda...que amo mesmo! Fui votar nestes preparos. Se ela fosse viva ter-me-ia dito que não era apropriado, que era falta de respeito, teria insistido talvez para que calçasse os agulha pretos e que vestisse algo sóbrio.
A sala estava na penumbra, o que certamente contribuía para o ar ensonado dos elementos presentes. Dois ou três minutos bastaram-me para dar por concluído o que ali me levara.
Ao fim do dia, liguei a televisão. Anunciavam-se conquistas intemporais, o recomeço de uma nova era, tempos de mudança. Os sorrisos eram os mesmos de sempre. Plásticos. Falsos. Dissimulados. A palavra que mais se ouvia...Vitória. Eu?! Eu teria escolhido uma outra... Vergonha. Porque ontem não ganhou ninguém e perdemos todos um pouco mais... liberdade, consciência, futuro, direitos...ontem de novo empenhámos algo que já houve tempo não tivemos...e ninguém se pareceu importar.
2 comments:
Concordo plenamente.
Somos todos culpados daquilo que é uma vergonha, e é vergonha porque todos consentimos "no deixa andar" que até me aflige.
É. Mansos mesmo...receio...
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