May 20, 2009

Os abutres já tinham partido. A carcaça estava limpa, despojada de carne ou fibra, restavam somente ossos e pele. Ela lá estava à hora marcada, comprometida com o papel que tivera nas acções dos últimos dias.
O pé direito das paredes perdia-se em direcção ao céu e os corredores sem fim eram labirintos onde o filho maldito dos deuses me buscara antes quando seguia pela mão de um simples homem. Depois, tão somente uma carcaça abandonada, despida, vazia dos espíritos que antes ali habitaram.
Seguindo os rituais da tribo, os herdeiros tinham reclamado - ou talvez, pilhado - o que entenderam como seu. Agora, era a minha vez de o fazer. Mas o que reclamar? Morreram-me...Não haveria ouro, insenso ou mirra capazes de fechar a ferida, de suster a dor. Debruçei-me sobre os despojos e coloquei de lado preciosidades destinadas, por outros, à recolha camarária...Foi o que trouxe comigo... objectos irreparáveis, partidos, destroçados...
A cada ano após esse dia, empenhei-me neles, procurei artesãos e saberes perdidos, busquei técnicas e materiais. A cada um que recuperei, a ferida fechou-se um pouco mais e o meu coração aquietou-se, também ele, um pouco mais. E, olhando-os hoje, o meu espírito reconhece neles as chamas que os animam e que o meu intelecto rejeita.


2 comments:

via said...

trabalho meticuloso esse de restituir a dignidade a actos de barbaridade. reparaste as dúvidas ou a dívida? Será que a pergunta faz sentido?

Anonyma said...

meticuloso?
talvez não... tão somente terapêutico... talvez...