January 08, 2007

Encantamento

Por vezes, ao fim de semana, íamos lá.
Queixavam-se que desaparecia assim que a viatura estacionava e era sempre a mesma história...”Quando é hora de voltar nunca sabemos onde estás! Que aborrecimento criança!”.
E era verdade, sim.
Esgueirava-me sempre para o fundo da sua oficina.
Bem lá no fundo, encostado à parede, havia um pequeno banco estrategicamente abandonado que eu arrastava, a coberto das sombras, para debaixo de uma prateleira. Aí, encontrava depositados os livros de “bonecos” que ele religiosamente me guardava e a sacola de pano.
De sacola ao ombro, desaparecia pela porta das traseiras, fugindo ao olhar da minha avó na constante azáfama da casa.
Sempre que me apanhava vassourava-me e dizia-me que parecia mal andar a fugir dos beijos dos tios e primos que sempre apareciam.
Nunca se conseguia, contudo, irritar seriamente e lá me deixava sumir no pátio do celeiro.
O burrito, era curioso... era como se tivesse conhecimento das minhas pequenas infracções e de alguma forma pactuasse com elas.
Não me recordo qual foi a primeira vez, o certo é que assim que sentia a minha pequena mão a bater-lhe ao de leve num dos quartos traseiros, erguia ligeiramente a pata e deixava-me subir para o seu dorso quente.
O resto era fácil.
Colocava-se debaixo da corda, usada para subir e descer os feixes de feno e as outras provisões que ali armazenavam, e deixava-me trepar até ao alto do celeiro onde no feno seco sonhava com heróis e vilões e o meu grafite deslizava em busca de traços e cores.
Ao fim do dia ouvia-os chamar e chamar e só descia quando ele aparecia e me lançava a escada de madeira para que descesse pelo meu pé.
Sabes Zé, nesses instantes, a criança a que todos chamavam bicho do mato era realmente feliz!
(Painting from Yerka)

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